A alma NÃO É imortal!

Conceitos Bíblicos sobre CORPO, ALMA E ESPÍRITO! – Parte 1

Conceitos com relação à alma

Dualismo – A visão do ser humano no contexto imortalista é que este possui uma natureza dualista, isto é, tem um corpo e possui uma alma [nephesh, no hebraico, psiquê, no grego], que seria imortal e estaria presa dentro do corpo e que é liberta por ocasião da morte deste, indo imediatamente para o Céu ou para o inferno, durante toda a eternidade. Na ressurreição, apenas o corpo morto ressuscita, pois a alma imortal já está lá, liberta do corpo, há muito tempo, religando-se a este por ocasião da ressurreição dos mortos que se dá no momento da segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23).

Essa é a visão dualista da natureza humana, de imortalidade da alma. Noutras palavras, você é uma pessoa que tem outra “pessoa” dentro de você. A visão tricotomista do ser humano ensina o mesmo contraste dualista de corpo e alma e prega que nós somos um espírito, possuímos uma alma e moramos em um corpo. Portanto, ambas as visões – dualista e tricotomista – serão refutadas da mesma forma, visto que possuem os mesmos conceitos básicos sobre a constituição da natureza humana.

Holismo – O conceito holista da natureza humana prega, ao contrário da imortalidade, que o ser humano não tem uma alma: ele é uma alma. Ele vive como uma alma, ele morre como uma alma. Uma alma vivente significa apenas um “ser vivo”. Nós não temos uma alma imortal presa dentro do nosso corpo que é liberta por ocasião da morte. A morte é o último inimigo a ser vencido (pelo fator “ressurreição”), e não o libertador da “alma imortal” (cf. 1Co.15:26). Pessoas morrem, pessoas ressuscitam.

Corpo, alma e espírito são características da mesma pessoa e não pessoas separadas. O espírito é o princípio ativador da vida, é aquilo que dá animação ao corpo, é o sopro de Deus por meio do qual respiramos e somos seres (almas) viventes. É esse o simplismo bíblico sobre a criação da natureza humana, que elimina os complexos malabarismos propostos por Platão em sua tese sobre a natureza dualista e a sobrevivência da alma após a morte em um estado consciente.

Qual é o conceito correto?

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se uma alma vivente” (cf. Gênesis 2:7)

Eis aí a passagem bíblica acerca da criação do ser humano, que nos dá um perfeito entendimento dos conceitos bíblicos de corpo, alma e espírito. É aqui que entra em cena algo muito desconhecido pela maioria das pessoas: biblicamente, o homem não tem uma alma, ele é uma alma. Ele “TORNOU-SE” uma alma e não “obteve” uma! A alma é o que o homem passou a ser, e não o que ele obteve de Deus. O corpo é a alma em sua forma exterior. A ideia hebraica de personalidade é a de um corpo animado pelo fôlego de vida (espírito) que alimenta o corpo, e não de uma alma presa dentro deste corpo. Assim, podemos entender que:

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [corpo], e soprou em suas narinas o fôlego de vida [espírito], e o homem tornou-se uma alma vivente [alma]” (cf. Gênesis 2:7)

A passagem bíblica que relata a criação do ser humano também nos deixa um sentido claro de corpo, alma e espírito. Nenhum é um elemento que Deus implantou no homem, imaterial e imortal, que saia dele após a morte, com consciência e personalidade. O espírito é tão somente o fôlego de vida que Deus soprou em nós e que o possuímos pela duração de nossas vidas terrenas. Nós permanecemos com este fôlego que nos concede respiração para continuarmos vivos durante a nossa existência terrestre, mas, quando este sopro se vai, as “almas viventes” tornam-se “almas mortas”.

O que retorna a Deus é o princípio de vida que ele soprou em nós a fim de conceder animação ao corpo formado do pó, e não uma alma imortal. Este princípio animador da vida é possuído tanto por homens como por animais (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.7:15; Sl.104:29). Este princípio é garantido tanto aos seres humanos quanto aos animais pela duração de sua existência terrena. A alma, no conceito bíblico, é que o ser humano “tornou-se” e não “obteve”. Deus não colocou uma alma no homem. Por isso mesmo, morrendo o homem, morre a alma (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3, 9; Gn.37:21; Dt.19:6, 11; Jr.40:14, 15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4; Ez.18:21).

Já a visão dualista em sua totalidade defende que o sopro de vida que Deus soprou em nossas narinas é a própria alma imortal implantada no ser humano. Sendo assim, o sopro de Deus em nossas narinas é o espírito (alma) imortal implantado nele, totalmente independente do corpo, preso dentro dele e liberto após a morte, com consciência e personalidade. Sendo assim, a narrativa de Gênesis 2:7 deveria ser entendida da seguinte maneira:

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [corpo], e soprou em suas narinas o fôlego de vida [espírito/alma imortal], e o homem tornou-se uma alma vivente” (cf. Gênesis 2:7)

Essa é, contudo, uma interpretação tendenciosa que deturpa completamente a clareza do texto bíblico. Não é necessário ser nenhum grande teólogo para perceber que tal interpretação é inválida pelo fato que adultera os sentidos primários de corpo, alma e espírito, que são deixados de maneira bem clara na narrativa da criação da natureza humana em Gênesis 2:7. Além de ignorar o fato de que a primeira vez que alma [nephesh] é mencionada na Bíblia é relacionado ao próprio ser humano como um todo, tornando-se uma alma e não obtendo uma, também altera nephesh para o meio do versículo quando na realidade ela é claramente relacionada ao final deste. Tudo não passa de uma completa manipulação bíblica textual.

A passagem da criação do homem coloca nephesh no fim do verso, e não no meio como querem os imortalistas. A alma é o que o homem “tornou-se”; o “espírito” é o que foi soprado nele para dar animação ao corpo formado do pó. Pelo fato de Deus não ter revelado a Moisés uma realidade dualista do ser humano, este narra simplesmente o princípio animador da vida dando animação a uma “alma vivente”. Esse total simplismo bíblico nega inteiramente que a natureza humana seja dualista, composta por uma alma imortal e por um corpo mortal. A revelação de Deus a Moisés incluiu apenas um corpo proveniente do pó tornando-se animado, sem qualquer tipo de alma sendo inserida dentro da substância corporal para lhe conceder imortalidade.

A forte tentativa de ignorar o simplismo bíblico no relato da criação humana não provém de alguma razão teológica (de fato, os imortalistas fazem de tudo para colocar uma “alma imortal” no relato da criação onde não aparece nada disso), mas sim porque negam em aceitar o fato óbvio de que a narração da criação traz uma natureza holista e não dualista do ser humano. Isso, evidentemente, os faria negar a sua crença de que Deus tenha implantado no homem um elemento eterno lhe concedendo imortalidade, o que daria um fim na doutrina do “estado intermediário” e do tormento eterno.

Que nephesh não é o próprio espírito [ruach, no hebraico] implantado no ser humano com imortalidade e personalidade, isso fica muito bem claro na Bíblia Sagrada, embora sejam coerentes em alguns de seus sentidos secundários. A ignorância em aceitar o sentido claro de corpo, alma e espírito de acordo com a Bíblia segundo Gênesis 2:7 causa, além de adulterações no sentido do texto, uma confusão ainda maior para solucionar os problemas depois, por causa da interpretação tendenciosa e errônea por parte dos dualistas. E este é apenas o início do fim da imortalidade da alma.

O que é o “espírito” [ruach] e o que é a “alma” [nephesh]?

Espírito, no original hebraico “ruach”, significa literalmente: “sopro, vento”. É o fôlego de vida que Deus soprou em nossas narinas tornando-nos almas viventes. Para os imortalistas, significa nada a mais e nada a menos do que a própria alma imortal implantada no homem, um segmento com consciência e personalidade. Mas isso não é verdade. A seguir, apresento inúmeras provas de que o espírito não tem parte nenhuma com um ser vivo inteligente que sobrevive fora do corpo:

O fôlego de vida sai do ser humano – Uma grande prova de que o fôlego de vida (espírito) que Deus soprou em nós não é uma alma imortal, é que a Bíblia afirma categoricamente que nós o perdemos por ocasião da morte (cf. Jó 27:3; Jó 34:14-15). Ora, se fosse uma entidade consciente presa dentro de nós, então continuaria conosco após a nossa morte, mas isso não é verdade: a Bíblia caracteriza a morte como a retirada do fôlego de vida (sopro). Isso prova que o “espírito” que possuímos nada mais é do que o sopro da parte de Deus que concede animação ao corpo, sendo frequentemente caracterizado como sendo o “sopro de Deus” (cf. Jó 33:4).

Quando é retirado por Deus (expirando), o fôlego é reintegrado no ar, por Deus. O próprio fato de nós possuirmos o “fôlego de vida” não significa possuir em si mesmo a imortalidade, porque na morte este princípio volta para Deus. Isso nos mostra que a vida deriva de Deus, é sustida por Deus e retorna para Deus por ocasião da morte. “Espírito”, no conceito bíblico, em nada tem a ver com uma entidade viva e consciente tal como no estilo kardecista ou platônico.

Tal fato é acentuado por Jó ao declarar: “Enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus no meu nariz, nunca os meus lábios falarão injustiça, nem a minha língua pronunciará engano” (cf. Jó 27:3,4). Enquanto o sopro de Deus está nas nossas narinas, nunca Jó pronunciaria qualquer palavra de engano. Quando, porém, o sopro se vai, o que é dele? Nada, não mais existe (cf. Jó 7:21; Jó 14:10-12).

Por isso ele acentua que enquanto estiver com ele o sopro de Deus nas suas narinas, os seus lábios não pronunciariam engano. O sopro (fôlego de vida) é inteiramente dependente de estar nas nossas narinas (corpo físico) para continuar ativo, dando continuidade a vida. Sem o corpo físico, este princípio deixa de conceder vida em si mesmo. Ademais, se o espírito [ruach – sopro] fosse a própria alma imortal implantada em nós, então a declaração de Jó nos levaria a crer que a “alma imortal” está situada no nariz de cada indivíduo: “Enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus no meu nariz” (cf. Jó 27:3).

Também lemos na passagem anteriormente citada: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se uma alma vivente” (cf. Gn.2:7). Ora, é aí que se situa essa “alma imortal”, no nariz de cada indivíduo? É mais do que evidente que o espírito (fôlego de vida) não é a alma implantada no ser humano nas suas narinas, mas simplesmente o princípio que anima o corpo, concedendo-lhe respiração a fim de se tornar um ser ativo.

Isso explica o fato bíblico deste princípio encontrar-se nas nossas narinas, e não na “alma” ou em alguma outra parte do corpo. Evidentemente, o fôlego de vida (espírito) que possuímos não tem parte nenhuma com uma noção dualista de corpo e alma; antes, é o princípio animador do corpo, que garante a existência da vida terrestre de toda a carne, e que volta para Deus quando expiramos na morte. Dizer que o fôlego de vida (espírito) que foi soprado no homem em Gênesis 2:7 é uma “alma imortal” é o mesmo que dizer que possuímos a alma em nosso nariz, o que creio não ser nem um pouco razoável.

O princípio animador do corpo – O corpo é formado de matéria, de pó. O espírito é o que dá animação ao corpo, e assim tornamo-nos almas viventes. Sem o espírito em nós, o nosso corpo morto não passa de matéria (pó) inanimado, sem vida. O que é o “espírito”, então? É exatamente aquilo que dá animação ao corpo, é a “vida” por assim dizer. Obviamente não tem parte nenhuma com algum outro “você” que volta para Deus, mas representa tão somente a vida deixada nas mãos do Criador; é por isso que a Bíblia apresenta os animais com o mesmo espírito-ruach possuído pelos humanos (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.7:15; Sl.104:29). No livro de Apocalipse é lido que até uma imagem de escultura é dotada de espírito [pneuma, no grego] para tornar-se um ser animado:

“E foi-lhe concedido que desse espírito [pneuma] à imagem da besta, para que também a imagem da besta falasse, e fizesse que fossem mortos todos os que não adorassem a imagem da besta” (cf. Apocalipse 13:15)

Aqui vemos que a imagem de escultura (um ser inanimado) foi dotada de espírito [pneuma] e assim foi dada animação [vida] à imagem. É mais do que óbvio que Deus não colocou uma “alma imortal” dentro da imagem e muito menos alguma entidade consciente que volta com personalidade e inteligência para Deus, mas simplesmente concedeu-lhe o fôlego da vida para dar animação à imagem de pedra. É exatamente a mesma coisa que sucedeu aos seres humanos.

A mesma coisa sucedeu a nós: fomos formados do pó da terra, de matéria inanimada; até que Deus soprou em nós o espírito [vida] dando animação à matéria formada do pó – e assim o homem tornou-se uma alma [ser] vivente. O espírito é o que vem da parte de Deus e que dá animação a um elemento inanimado, tornando tal elemento em animado, concedendo-lhe vida. Quando as pessoas morrem, elas perdem a vida [espírito], tornam-se novamente em matéria inanimada (pó), é por isso que a Bíblia afirma que o espírito de todos retorna a Deus (cf. Ec.12:7), pois as pessoas perdem a vida, voltam a ser pó.

Deus, contudo, ressuscitará os nossos corpos mortais, soprando novamente em nós o espírito [vida] na ressurreição (para sermos novamente um ser animado, vivente) tornando-nos novamente em “almas viventes”. Tal fato é relatado com clareza em Apocalipse:

“Então vi uns tronos; e aos que se assentaram sobre eles foi dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de Deus, e que não adoraram a besta nem a sua imagem, e não receberam o sinal na fronte nem nas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” (cf. Apocalipse 20:4)

Aqui é nos dito que as almas dos que foram degolados por causa do testemunho de Jesus reviveram. Se elas “reviveram”, é porque estavam mortas. O que aconteceu, então, nessa ressurreição? Aconteceu que Deus soprou em nós novamente o espírito que vem da parte dEle, para que saíssemos do estado inanimado (i.e, sem vida), tornando-nos novamente em almas viventes:

“Assim diz o Soberano, o Senhor, a estes ossos: Farei um espírito entrar em vocês, e vocês terão vida. Porei tendões em vocês e farei aparecer carne sobre vocês e os cobrirei com pele; porei um espírito em vocês, e vocês terão vida. Então vocês saberão que eu sou o Senhor” (cf. Ezequiel 37:5,6)

“Por isso profetize e diga-lhes: Assim diz o Soberano, o Senhor: Ó meu povo, vou abrir os seus túmulos e fazê-los sair; trarei vocês de volta à terra de Israel. E quando eu abrir os seus túmulos e os fizer sair, vocês, meu povo, saberão que eu sou o Senhor. Porei o meu espírito em vocês e vocês viverão, e eu os estabelecerei em sua própria terra. Então vocês saberão que eu, o Senhor, falei, e fiz. Palavra do Senhor” (cf. Ezequiel 37:12-14)

Notem que não é o nosso espírito que deixa o Céu para se religar ao corpo por ocasião da ressurreição, mas sim o espírito de Deus que concede vida que nos é soprado novamente; fazendo-nos sair dos túmulos, o local onde o povo que já morreu se encontraria. Nós estaríamos sem vida na morte, mas Deus nos concederia novamente o espírito que parte dEle a fim de nos conceder novamente vida por ocasião da ressurreição.

Não existe nenhuma religação entre corpo e alma, mas tão somente o princípio animador da vida sendo novamente concedido a nós por ocasião da ressurreição dos mortos. Podemos assim traçar uma correta analogia com a imagem inanimada de Apocalipse que recebeu o espírito para tornar-se animada:

A NATUREZA HUMANA SEGUNDO GÊNESIS 2:7
Feito do pó da terra
Material inanimado
Foi-lhe dado o espírito
Passou a ter vida (tornou-se um ser vivente)
Tornou-se um ser animado

A IMAGEM DE APOCALIPSE 13:15
Feita de pedra
Material inanimado
Foi-lhe dada o espírito
Tornou-se um ser animado
Passou a ter vida

Como vemos, o “espírito” que possuímos é nada a mais do que aquilo que dá animação ao corpo (matéria), concedendo-lhe vida. A analogia com a imagem de pedra relatada no Apocalipse é válida porque o mesmo que sucedeu aos seres humanos sucedeu também à imagem, ambos tornaram-se um ser animado após ser lhes soprado o espírito. É evidente que o “espírito” soprado não é uma “alma imortal” (pois se assim o fosse então por lógica a imagem de pedra também a deveria possuir, pois também foi dotada de espírito-pneuma), mas é tão somente o princípio de vida concedido às criaturas viventes durante a permanência de sua existência terrestre.

É claramente nos referido que o motivo dos ídolos mudos não serem vivos é decorrente do fato de não possuírem “espírito-ruach”: “Eis que está coberto de ouro e de prata, mas no seu interior não há fôlego [ruach] nenhum” (cf. Hc.2:9). E também em Jeremias: “Todo ourives é envergonhado pela imagem que ele esculpiu; pois as suas imagens são mentira, e nelas não há fôlego [ruach]” (cf. Jr.10:4).

Aqui vemos que os que não têm vida são descritos como sem “espírito-ruach”. Os ídolos são considerados como “sem vida” pelo fato de serem destituídos de espírito-ruach, que é o princípio animador de toda a vida. Quando um ídolo ou uma imagem ganha animação, é descrito como constituído de “espírito-pneuma” (cf. Ap.13:15), porque passou a ter vida. Em outras palavras, o espírito é nada a mais do que o poder capacitador de vida a qualquer ser vivente, mesmo quando se trata de imagens de pedra ou de animais, como veremos mais adiante.

Ele não é uma alma imortal, e nem algo que traz consigo imortalidade, consciência e personalidade após a morte, mas apenas a vida que possuímos em nossa jornada em nossa terrestre. Se o espírito fosse uma alma imortal, então a imagem de pedra de Ap.13:15 e os animais também teriam “almas imortais”, pois são descritos possuindo “espírito-pneuma”. Quando o espírito é retirado do ser humano, este volta para o pó da terra (cf. Sl.104:29; Sl.146:4; Gn.3:19). Da mesma forma, quando o espírito concedido temporariamente àquela imagem lhe é retirado, esta volta a ser uma pedra inanimada. O processo é o mesmo: seres ou objetos inanimados que temporariamente ganham vida pelo sopro do espírito-ruach em seu interior e que tornam-se novamente inanimados (sem vida) após este sopro retornar ao Criador.

Sai o espírito, volta ao pó – Confirmando o fato anterior, vemos que os autores bíblicos correspondiam bem ao fato de que a saída do espírito-ruach por ocasião da morte não significa a continuação da vida em um outro estágio ou em uma dimensão superior, mas sim a cessação dela. O salmista expressa em palavras o que aconteceu na criação humana e o que acontece ao fim dela: “Quando sopras o teu fôlego, eles são criados” (cf. Sl.104:30). O sopro de Deus [fôlego] nas nossas narinas, também denominado por “espírito-ruach” (cf. Jó 33:4; Jó 32:8; Is.42:5), é o que nos faz vivos – nos transforma em “almas viventes” (cf. Gn.2:7).

A pergunta que fica é: quando este “fôlego” ou “espírito” deixa o corpo por ocasião da morte (ao expirar), o que acontece ao ser racional? O verso anterior do Salmo no qual acabamos de passar responde corretamente a esta pergunta: “Quando escondes o teu rosto, entram em pânico; quando lhe retiras o fôlego, morrem e voltam ao pó” (v.29). O ser racional simplesmente volta ao pó. Quando o fôlego [espírito] é retirado do ser humano, este não parte desencarnado para um estado intermediário, mas simplesmente deixa de existir – volta a ser pó.
A saída do espírito por ocasião da morte não significa um ser racional deixando o corpo. Jó declara isso enfaticamente nas seguintes palavras: “Porém, morto o homem, é consumido; sim, rendendo o homem o espírito, então onde está ele? Como as águas se retiram do mar, e o rio se esgota, e fica seco, assim o homem se deita, e não se levanta; até que não haja mais céus, não acordará nem despertará de seu sono” (cf. Jó 14:10-12).

Aqui vemos a entrega do espírito não significa levar consciência e personalidade na morte, porque mesmo assim ele não é despertado até não existir mais céus. Após afirmar que o homem rende o seu espírito na morte, Jó faz a pergunta que não quer calar: “Onde ele está”? Isto é, para onde ele vai? O que acontece com ele? Simplesmente, deixa de existir. Não vai desencarnado para o Céu. Ele torna-se como as águas que se retiram do mar e como um rio que se esgota e fica seco. Essa analogia feita por Jó nos mostra claramente que o homem não mais existe.

Assim como quando as águas se retiram do mar este já não existe, e quando o rio se esgota fica seco e desaparece, assim também do mesmo modo o homem na morte já não existe. O ser racional só volta a atividade quando “não existir mais céus” (v.12), o que o Novo Testamento relaciona à “ressurreição do último dia” (Jo.6:39,40), quando “os céus e a terra que agora existem estão reservados para o fogo, guardados para o dia do juízo e para a destruição dos ímpios” (cf. 2Pe.3:7). E novos céus e nova terra surgirão no lugar.

Se a retirada do espírito do homem na morte significa a ida imediata na presença de Deus em estado desencarnado, então a analogia feita por Jó seria nula e sem sentido. Tal analogia nos revela que o ser racional deixa de existir após a entrega do espírito-ruach. Tal fato é apresentado com ainda mais clareza no Salmo 146:4 – “Quando o espírito deles se vai, eles voltam ao pó, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (cf. Sl.146:4).

A entrega do espírito não significa a continuação de vida em um estado desencarnado, mas sim a cessação dela, pois os “pensamentos perecem”. Sendo que os próprios imortalistas atribuem o processo de pensamento como função da alma, a sede dos pensamentos, seria imprescindível que eles continuassem existindo após a entrega do espírito na morte, caso fosse um ser racional com inteligência e consciência. Contudo, os próprios pensamentos perecem, pois não existe ser racional na morte.

A alma e o sangue – Em Levítico 17:11, lemos: “Porque a vida da carne está no sangue”. No texto original hebraico, “vida” aqui é a tradução de nephesh, de modo que a transliteração correta da passagem seria: “A alma da carne está no sangue”. O motivo pelo qual a alma é igualada ao sangue provém do fato de que a vitalidade da vida-nephesh reside no sangue. Em outras palavras, sem sangue não há vida-nephesh. O corpo não é a prisão de uma alma imaterial, pois a alma da carne está no sangue.

Isso não faz sentido caso a alma fosse algo imaterial implantado dentro de nós, pois se assim o fosse não teria parte nenhuma com o sangue. Também lemos certa afirmação em Gênesis no mesmo estilo: “Carne, porém, com sua vida [nephesh] isto é, com seu sangue, não comereis. Certamente requererei o vosso sangue, o sangue da vossa vida [nephesh]; de todo animal o requererei, como também da mão do homem, sim da mão do próximo de cada um requererei a vida [nephesh] do homem” (cf. Gn.9:4,5).

Ora, se a vida (alma- nephesh) do homem é o sangue, então sem o sangue não há vida (alma-nephesh). Isto é somente lógica. O homem sem sangue não pode permanecer vivo de acordo com esta declaração de Gênesis. Pois a vida [alma-nephesh] está no sangue. Como então assumir que uma pessoa sem sangue (um espírito incorpóreo, por exemplo) possa ser considerada viva em um “estado intermediário”? Não faz sentido. Sem sangue não há vida, pois “a alma da carne está no sangue”. Como o erudito Basil Atkinson corretamente assinala: “A alma do homem está em seu sangue e, de fato, o seu sangue é a sua alma”.

O maior problema da teologia imortalista é que eles pensam que o sangue está relacionado apenas ao corpo físico, externo, e que, portanto, sem sangue não há mais vida no corpo, mas a alma não é afetada com isso e permanece viva subsistindo sem o corpo em algum lugar. Em outras palavras, para os dualistas é extremamente crucial que o sangue seja a vitalidade apenas do corpo e não da alma. Caso contrário, a alma não escaparia da morte, tanto quanto o corpo. O texto bíblico, porém, ao invés de dizer “o sangue do vosso corpo”, diz “o sangue da vossa alma” (nephesh – Gn.9:5). Isso mostra que a alma subsiste viva através do sangue tanto quanto o corpo físico.

E assim matamos dois coelhos de uma só vez: o primeiro, é aquele que desassocia a alma do sangue e ensina que somente o corpo é movido pelo sangue e só existe com a vitalidade deste (o que já vimos que é falso, pois o sangue desempenha o mesmo papel para com a alma), e o segundo é o de que a alma seria uma entidade espiritual imaterial infundida dentro de nós. Se fosse, não estaria dependente de algo físico e tangível (como o sangue), e a Bíblia não diria que “a sua alma-nephesh, isto é, o seu sangue, não comereis”, pois seria ilógico e sem qualquer possibilidade “comer a alma, ou seja, o sangue”.

Uma coisa estaria tão desassociada da outra que tal sentença seria no mínimo absurda. Uma seria tangível e a outra intangível, uma seria material e a outra imaterial, uma desceria ao túmulo na morte e a outra aos céus, uma estaria ligada ao corpo e a outra ao espírito. Como dizer que a alma é o sangue com tantos contrastes que a teologia imortalista afirma que os separa? Uma coisa não teria nada a ver com a outra, e, portanto, não seriam igualadas. Só foram porque a linha dualista que separa a alma do corpo e os contrasta realmente não tem qualquer cabimento bíblico.

Portanto, não restam objeções ao fato de que não existe alma sem sangue; sem sangue não há vida. Não existe qualquer chance ou possibilidade de existir um “estado intermediário” de “espíritos incorpóreos” pré-ressurreição ausentes de corpo. O fato bíblico de que a alma da carne está no sangue e de que a vida [nephesh] do homem é o seu sangue nos mostra que não pode uma pessoa ser considerada como “viva” em algum lugar sem a vitalidade da vida-nephesh que reside no sangue.

Na morte, o coração deixa de bater, o sangue deixa de circular, e tornamo-nos almas mortas. Só voltaremos ao estado de vida novamente quando estivermos com a vitalidade da vida, com o sangue, sem o qual não existe vida [alma-nephesh]. Poderíamos resumir o argumento nas seguintes premissas:

(1) A alma da carne está no sangue – cf. Lv.17:11.
(2) Não existe vida [alma – nephesh] sem sangue – cf. Gn.9:4,5.
(3) Na morte, perdemos o sangue, a vitalidade da alma.
(4) Sem o sangue que dá vida a alma, não existe alma.
(5) Só voltaremos a ser reconstituídos de sangue novamente na ressurreição.
(6) Logo, a alma ganha vida novamente a partir da ressurreição dos mortos.

O homem torna-se uma alma vivente – Uma outra prova importante para que possamos compreender que o espírito não é uma alma imortal é a própria continuação da passagem de Gênesis 2:7 – “…soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se uma alma vivente”. Duas coisas são interessantes aqui. Em primeiro lugar, a alma é o que o homem “tornou-se”, e não o que ele “obteve”. Como já vimos, Deus não colocou uma alma no homem, como erroneamente pensa a doutrina dualista.

Em segundo lugar, com a implantação do sopro de Deus em nossas narinas, o homem tornou-se uma “alma vivente”, e não uma “alma imortal”! Ora, se a interpretação correta fosse a dualista, então a sequência imediata de tal passagem seria que o homem tornou-se (ou melhor, “obteve”) uma “alma imortal”, “imaterial”, pois o termo “alma vivente” após a implantação do espírito-ruach implica que pode se tornar “alma morta” após a retirada do espírito-ruach. Isso é somente lógica.
Quando a Bíblia diz que em resultado do sopro divino “o homem tornou-se uma alma vivente”, ela está dizendo apenas que o corpo formado literalmente do pó da terra ganhou animação e se fez um ser vivo, que respira – nada além disso. O sangue (vitalidade da alma – cf. Lv.17:11; Gn.9:4,5) começou a circular, o cérebro começou a raciocinar e o coração a bater, com todos os sinais ativados. O homem tornou-se uma “alma vivente”, ou seja, ou ser vivo, que deixa de existir na morte e volta à existência na ressurreição gloriosa.

Não houve um componente imaterial e imortal colocado no ser humano. Declarado em termos simples, “uma alma vivente” significa “um ser vivo”, e não “uma alma imortal”! Evidentemente a alma é considerada “vivente” enquanto vive, passando a ser “alma morta” por ocasião da retirada do fôlego de vida [espírito] no falecimento. Uma alma vivente significa simplesmente um ser vivo, que morre. Alma é vista como a natureza humana como um todo, e não como uma parte do ser humano separada do corpo e presa dentro deste.

O espírito sobe para Deus – Outra prova patente contra os imortalistas é o que Salomão descreve em Eclesiastes: “E o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (cf. Ec.12:7). É fato bíblico que todas as pessoas (sendo justas ou ímpias) desciam para o Sheol na morte (cf. Gn.37:35; Jó 10:21,22; Sl.94:17; Gn.42:38; Gn.42:29,31; Is.38:10,17; Sl.16:10; Sl.49:9,15; Sl.88:3-6,11; Jó 17:16). Para os imortalistas, Sheol é a habitação dos espíritos incorpóreos e conscientes. Já para os mortalistas, significa puramente “sepultura”, em um sentido mais amplo, como veremos mais adiante. O debate sobre o conceito correto sobre Hades/Sheol será abordado mais a frente neste estudo.

O que temos de fato, por hora, é que todas as pessoas desciam ao Sheol por ocasião da morte. Onde se localiza o Sheol? Localiza-se nas regiões inferiores da terra (cf. Ef.4:9), no “coração” desta terra (cf. Mt.12:40), em oposição ao Céu (cf. Mt.11:23). Os seguidores da revolta de Coré “desceram… vivos ao Sheol” (cf. Nm.16:30,33). Eis aqui já a primeira contradição dos imortalistas: O “espírito” sobe para Deus, e não “desce” para o Sheol (cf. Ec.12:7)! Se o espírito fosse um elemento com consciência e personalidade, ele deveria descer e não subir. Mas isso jamais é dito na Bíblia, pelo simples fato de que o espírito é nada a mais do que o dom da vida [fôlego] concedido durante a duração de nossas vidas terrenas, e não algum segmento que leva consigo consciência e personalidade após a morte.

Sobe para Deus por ocasião da morte porque deriva de Deus, e volta para Deus. Salomão é bem claro em dizer que o espírito subiu para Deus, e não “que desceu para o Sheol”! Nisso vemos uma clara evidência que o espírito está longe de ser a própria pessoa como uma entidade viva e consciente, mas é tão somente o princípio de vida que retorna para Deus no momento da morte. Sendo que na época de Salomão todas as pessoas desciam ao Sheol, que biblicamente fica nas regiões inferiores desta terra (cf. Ef.4:9), como é que Salomão diz que o espírito sobre para Deus? Também em Atos 2:27, falando a respeito de Jesus, entre a sua morte e ressurreição, o texto assim narra: “Porque não deixarás a minha alma no Hades, nem permitirás que aquele que te é leal veja a corrupção”.

E também em Mateus 12:40 – “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra”. A alma de Jesus passou os três dias e três noites em que esteve morto no Sheol, que fica debaixo da terra, e não no Paraíso! Isso, contudo, não impediu que ele tivesse entregado o seu espírito ao Pai nos dias em que esteve morto: “Pai, ao Senhor entrego o meu espírito. E com estas palavras morreu” (cf. Lc.23:46).

Ora, como é que Cristo passou os três dias em que esteve morto no Sheol (cf. Mt.12:40; At.2:27), que fica nas regiões inferiores desta terra (cf. Ef.4:9), se a Bíblia diz que o “espírito” dele subiu para Deus? Obviamente, porque o “espírito” não é o nosso “próprio eu”, não sendo uma “alma imortal”, mas é tão somente o princípio animador da vida concedido por Deus tanto aos seres humanos quanto aos animais pela duração de sua existência terrena, que volta para Deus por ocasião da morte.

Nisso fica claro que o espírito não é o nosso próprio “eu” liberto na morte, pois, se assim fosse, seguir-se-ia que Cristo teria passado (os dias em que esteve morto) com o Pai, e não debaixo da terra, no Sheol (cf. Mt.12:40; At.2:27), pois o espírito sobe, e não desce! Vemos, portanto, que se a visão dualista de que o espírito é um segmento consciente que leva consigo personalidade, deveríamos pressupor que:

(1) O espírito desceria para o Sheol, e não voltaria a Deus (cf. Ec.12:7).
(2) Sendo que Cristo entregou seu espírito ao Pai, ele deveria ter subido aos céus na morte, e não descido ao Sheol (cf. Mt.12:40; At.2:27).

Contudo, estas duas premissas imortalistas contrariam diretamente a Bíblia Sagrada, como já vimos.

NA BÍBLIA SAGRADA
O espírito sobe para Deus na morte – cf. Ec.12:7.
Jesus entregou ao Pai o seu espírito mas mesmo assim esteve no Sheol (regiões inferiores da terra – cf. Ef.4:9) na morte.

NA TEOLOGIA DUALISTA
O espírito de todos deveria descer (para o Sheol) na morte.
Se o espírito fosse um segmento consciente com personalidade, Cristo deveria logicamente estar com o Pai enquanto esteve morto.

Vale também ressaltar que Cristo, depois de três dias em que esteve morto, ainda assim declarou a Maria Madalena: “Não me detenhas, porque ainda não subiu para o Pai” (cf. Jo.20:17). Óbvio, porque a entrega de seu espírito ao Pai não significou o seu regresso a Ele, pelo fato de que o espírito não é um segmento consciente e com personalidade, mas tão somente o princípio animador do corpo.

Tudo isso nos mostra de forma mais do que clara e lúcida de que o espírito que possuímos não é uma outra pessoa que é liberta conscientemente após a morte, mas sim um princípio que ativa o corpo concedendo-lhe animação. Como o corpo volta para o pó da terra na morte, ele deixa de ser animado e, portanto, o espírito-ruach perde o seu sentido de animação do corpo e volta para Deus por ocasião da morte.

A “salvação universal dos espíritos” – Uma verdade universal é dita em Eclesiastes 12:7 – “E o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”. Essa é uma verdade universal, ou seja, o espírito de todos volta para Deus, que o deu. Em lugar nenhum da Bíblia está escrito que o espírito dos ímpios desce para o inferno ou para o diabo. Não, pois todos os espíritos sobem para Deus.

Nisso também fica mais do que claro que o espírito não é o nosso próprio “eu” fora do corpo, pois, se assim o fosse, então teríamos uma salvação universal (de justos e ímpios), pois o espírito de todos sobre para Deus! O que Salomão estava falando era simplesmente para que se lembrassem do seu Criador nos dias da sua juventude (v.1), antes que chegue à velhice (v.2-6), e com a morte “o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (v.12).

Esse processo é ocorrido em todos os seres humanos sejam justos ou ímpios. Assim como todas as criaturas humanas devem se lembrar do Criador na juventude e assim como tanto justos como ímpios envelhecem, assim também o espírito de todos sobre para Deus por ocasião da morte. Em momento nenhum o autor deixa passar qualquer hipótese de que o termo se restringisse apenas aos salvos, porque o próprio contexto mostra um processo que sucede a todos os seres humanos.
O que Salomão (autor do livro de Eclesiastes – cf. Ec.1:1) estava relatando é uma verdade universal de que o espírito [de todos] por ocasião da morte retorna a Deus, quem o deu. O que retorna a Deus se refere ao espírito de todos os homens, não somente dos justos, mas de “toda a carne”. O próprio fato do espírito de todas as pessoas voltar a Deus na morte nos prova novamente que este espírito-ruach não é uma alma imortal ou a própria pessoa em estado desencarnado, pois se assim sucedesse então apenas o espírito das pessoas boas que subiria para Deus, e o das pessoas más desceria para o inferno ou para o diabo.

Todos os espíritos sobem para Deus porque o nosso espírito não é uma entidade consciente com personalidade com destinos diferentes entre bons e maus após a morte, mas tão somente o fôlego de vida presente em todas as criaturas durante a nossa existência terrestre, princípio este que retorna para Deus porque provém dEle mesmo a fim de dar animação para o corpo formado do pó. Por isso, o autor não faz a mínima questão de diferenciar o destino do espírito de bons ou de maus por ocasião da morte. Novamente a doutrina imortalista entra em choque contra os princípios da exegese e hermenêutica.

Os animais também como alma – Uma outra prova clara de que “alma vivente” não significa “alma imortal” é o fato de que aos animais também foi designado o termo “alma vivente – nephesh hayyah” (cf. Gn.1:20,21,24,30; 2:19; 9:10,12,15,16; Lv.11:46). A maioria das pessoas desconhecem tal fato simplesmente porque os seus tradutores decidiram traduzir o termo hebraico “nephesh hayyah” como “criaturas viventes” em referência aos animais, e como “alma vivente” nas referências a seres humanos.

O motivo, evidentemente, não é por causa dos manuscritos originais, mas sim por consequência de suas convicções religiosas, de que o homem conta com uma alma imortal não possuída pelos animais. Em decorrência disso não quiseram comprometer as suas doutrinas da imortalidade da alma humana criando um dilema de primeira ordem, e tomaram a liberdade de traduzir o nephesh do hebraico como “criatura” quando em referência aos animais e como “alma” quando em referência aos seres humanos.

Essa é a mesma adulteração reconhecida em outras inúmeras passagens bíblicas que mostram também a alma-nephesh sendo morta ou destruída, o que também é ocultado pela grande maioria das versões, embora fosse um conceito amplamente difundido na Bíblia. O original, contudo, traz nephesh [alma], tanto a seres humanos, como também aos animais. O termo alma-nephesh é empregado tanto para as pessoas quanto para os animais porque ambos são seres conscientes.
Tanto homens como animais partilham do mesmo princípio animador de vida, isto é, o “fôlego da vida”. Todo o ser vivente relaciona-se a todas as criaturas, não somente ao homem, mas também aos animais (cf. Jó 12:10). O homem não recebeu uma alma de Deus; ele tornou-se uma alma vivente, assim como os animais. A natureza de todo o ser vivente é mortal, e não imortal, o que somente Deus é (cf. 1Tm.6:16).

Herdaremos uma natureza imortal com a ressurreição dos mortos na segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:53; 1Co.15:23). A alma não é algo imaterial e nem imortal, pois até mesmo os animais são referidos como alma-nephesh. Sendo que no mesmo contexto em que Deus dá a revelação a Moisés sobre a criação em Gênesis 1 e 2 a palavra nephesh [alma] é uma referência não somente aos humanos mas também aos animais, fica claro que Moisés não imaginava que este termo hebraico significasse em si mesmo a detenção de imortalidade.

Doutra forma, teria ele apenas feito menção a este termo quando em referência aos humanos, somente. Para ele o termo significava tão somente um ser consciente, sujeito a morte tanto quanto os animais. Por isso, ele não se incomodava e nem se intimidava em fazê-lo em menção a humanos e a animais. Quando os defensores da imortalidade da alma se deparam com o fato bíblico de que nephesh também é mencionado em referência direta aos animais e no mesmo contexto dos seres humanos, se dão conta do dilema intransponível que são obrigados a encarar.

Afinal, se a alma é imortal e imaterial, então os animais também partilhariam desta mesma qualidade que deveria estar presente somente nos seres humanos. A única solução lógica para isso é exposta por Basil Atkinson:

“Eles [o homem e os animais] não são criaturas bipartites que consistem de uma alma e um corpo que podem ser separados e prosseguir vivendo. Suas almas são a totalidade deles e compreende seus corpos, bem como suas faculdades mentais”

Os animais com espírito e fôlego – Ademais, exatamente a mesma palavra, no original hebraico ruach, que é traduzida por “espírito”, é usada tanto em relação aos seres humanos quanto a animais (cf. Gn.7:15; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.6:17; Sl.104:29). Ou seja: os animais também possuem espírito-ruach da mesma forma que os seres humanos! A Bíblia não faz sequer a menor distinção entre eles. O espírito “de toda a carne” entrou na arca de Noé, e não foram apenas seres humanos que lá entraram:

“E de toda a carne, em que havia espírito de vida, entraram de dois em dois para junto de Noé na arca” (cf. Gênesis 7:15)

Note que de toda a carne em que havia espírito de vida entraram de dois em dois para a arca de Noé. Será que foram apenas os humanos que entraram na arca? É claro que não. Isso deixa claro que os animais também possuem espírito de vida, pois o espírito-ruach não é uma detenção apenas dos humanos. Dizer que os animais têm fôlego, mas não tem espírito, é negar dois fatos claros na Bíblia Sagrada.

O primeiro, é que espírito [ruach] é usado tanto a animais como a seres humanos indistintamente (cf. Gn.7:15). A Bíblia não faz a mínima distinção, porque “entraram na arca de dois a dois de toda carne em que há um espírito vivo” (cf. Gn.7:15 – Young’s Literal Translation). Se alguém alega que os animais não têm espírito, então além de contradizer a Bíblia seria forçado a negar também que os seres humanos o possuam, pois a mesma palavra é usada para os dois no mesmo contexto!
Também lemos em Gênesis 6:17:

“Porque eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra, para desfazer toda a carne que há espírito [ruach] de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra expirará”

A passagem é bem clara em relatar a eliminação completa de toda a carne em que há o espírito-ruach, por ocasião do dilúvio. Se fosse correta a interpretação dos dualistas de que o espírito significa uma alma imortal e que apenas os humanos a possuem, então deveríamos pressupor que somente os seres humanos foram eliminados por ocasião do dilúvio, pois a Bíblia relata bem claramente que toda a criatura em que houvesse espírito-ruach seria desfeita. É evidente que os animais também foram eliminados no dilúvio, porque eles também possuem espírito-ruach (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Gn.7:15; Sl.104:29; Ec.3:19,20).

Em Gênesis 7:21,22 lemos novamente a confirmação bíblica de que os animais também possuem espírito-ruach: “E expirou toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de gado e de fera, e de todo réptil que se roja sobre a terra, e todo homem, tudo o que tinha fôlego de espírito [ruach] de vida em seus narizes, tudo o que havia na terra seca, morreu” (cf. Gn.7:21,22). Também lemos no Salmo 104:29 o rei Davi afirmando que os peixes e os outros animais marinhos também possuem ruach:

“Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas. Assim é este mar grande e muito espaçoso, onde há seres sem número, animais pequenos e grandes. Ali andam os navios; e o leviatã que formaste para nele folgar. Todos esperam de ti, que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno. Dando-lho tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e se enchem de bens. Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras o fôlego, morrem, e voltam para o seu pó. Envias o teu espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra” (cf. Salmos 104:24-30)

Diante do contexto, o escritor bíblico inspirado não está falando de seres humanos, mas de animais marinhos, pequenos e grandes. E o que ele diz? Que, quando Deus retira-hes o fôlego (que o original hebraico traz ruach, espírito!), eles morrem e voltam ao pó! No verso seguinte, é nos dito como eles são criados: Deus envia-lhes o espírito [ruach], e eles são criados, e quando esse espírito [ruach] lhes é retirado, eles morrem e voltam ao pó. Ou seja: o que diferencia humanos de animais no quesito da vida após a morte não é a suposta possessão de um espírito no íntimo do ser, nem a posse de um espírito na criação ou a retirada dele após a morte, pois isso tudo isso acontece também com os animais, mas é o fato de que um ressuscita e o outro não. Daí toda a importância da ressurreição no NT, como sendo a esperança dos cristãos.

Isso tudo mostra que é fato indiscutível que os animais também possuem o mesmo espírito-ruach possuído pelos seres humanos. Será que os animais ao morrer irão para o estado intermediário junto com os homens? Claro que não. Fica claro que espírito significa “vida”, e não um ser inteligente que sai do corpo na hora da morte. O segundo erro provém do fato de que o espírito é o próprio fôlego de vida, conforme descrição de Gênesis 2:7 e o paralelismo de Jó 33:4, de Jó 32:8 e de Isaías 42:5. E todos – humanos e animais – possuem o mesmo fôlego, e não fôlegos diferentes:
“Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (cf. Eclesiastes 3:19,20)

O que sucedeu na criação do homem é exatamente o mesmo que aconteceu na criação dos animais: Deus soprou-lhes o fôlego de vida [espírito] e eles tornaram-se almas viventes. Não há diferença alguma e nem vantagem nenhuma conosco em relação aos animais que nos permita desfrutar de uma imortalidade inerente e incondicional diferentemente deles que voltam para o pó. Todos foram feitos do pó e voltarão para exatamente o mesmo lugar: o pó.

O mais interessante sobre esta última passagem (cf. Ec.3:19,20) é que o autor faz uso do hebraico ruach (espírito) no mesmo contexto dos seres humanos, dizendo ainda que ambos são iguais! “Todos tem o mesmo espírito-ruach” (v.19)! O escritor inspirado faz questão de ressaltar o fato de que não apenas o fôlego-neshamah, como também o espírito-ruach é possuído pelos animais, e, se adiantando a quaquer objeção imortalista, afirma ainda que o espírito possuído por ambos é o mesmo, refutando qualquer possibilidade de o espírito dos humanos ser uma “alma imortal” e dos animais ser uma mera “respiração”!

Ele iguala em absoluto o espírito dos homens com o dos animais dizendo que são a mesma coisa (v.19), e por consequência disso a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma (v.19), e, finalmente, conclui dizendo que o local que os homens partem na morte é o mesmo caminho dos animais (v.20). Francamente, mas apenas uma interpretação textual extremamente tendenciosa e mal feita que poderia chegar ao ponto de negar o fato óbvio de que o espírito possuído pelos seres humanos não é diferente daquele que é detido pelos animais, e que em decorrência deste fato ambos perecem igualmente na morte e tem o mesmo destino: o pó da terra.

Aqui é claramente indicado a nós que o motivo pelo qual o homem não possui vantagem nenhuma sobre os animais decorre do fato de que ambos possuem o mesmo espírito-ruach. Ora, se o espírito-ruach dos animais não lhes concede uma imortalidade, então é óbvio que o dos seres humanos também não lhes dá tal vantagem. Como os defensores da alma imortal fizeram com tão grande prova irrefutavelmente contra o ensinamento dualista? Simples, adulteraram a tradução. Preferiram tomar a liberdade em traduzir por “fôlego” antes do que por “espírito”, como deveria ser traduzido. O hebraico tem palavra exata para ambos, mas Salomão faz menção do ruach [espírito] para os animais e o faz no mesmo contexto dos seres humanos e igualando-os a estes!

É óbvio que o “espírito” possuído por nós não significa uma alma imortal e muito menos alguma qualificação em nós presente que nos ofereça vantagem alguma sobre os animais ou que nos leve para o Céu após a morte. Antes, é nada a mais do que a vida presente não apenas nos seres humanos, como também nos animais. O destino de ambos é o pó da terra. Felizmente, a Bíblia nos assegura que existirá a ressurreição dos mortos para todos os seres humanos (cf. Dn.12:2), que acontece na segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23). É a ressurreição, e não a possessão de uma “alma” ou um “espírito”, que nos distinguem dos animais no quesito “morte”.

Devemos também considerar mais alguns fatos importantes a ser mencionados. O primeiro deles é que se os escritores bíblicos tivessem a ideia de que apenas os humanos possuem espírito e os animais possuem apenas o “fôlego” (como ensinam os imortalistas), então eles utilizariam essa segunda palavra para quando relacionado aos animais, pois o hebraico possui palavra para fôlego [neshamah] e para espírito [ruach]. Mas quando aplicado aos animais, ao invés de mencionarem apenas o fôlego-neshamah, eles mencionavam o espírito-ruach (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Gn.7:15; Sl.104:29)!

E, pior ainda, eles a mencionavam junto com os seres humanos sem fazer a menor distinção entre eles (cf. Gn.7:15; Gn.6:17; Gn.7:21,22)! E mais, quando o rei Davi foi tratar de peixes, ao invés de ele mencionar apenas o fôlego (como qualquer imortalista faria), ele faz questão de mencionar o próprio espírito-ruach (Sl.104:29). Finalmente, se o fôlego é aquilo que dá animação ao corpo e o espírito é uma alma imortal e consciente, então a estátua de pedra do Apocalipse deveria ter sido revestida de fôlego para dar animação à imagem, e não de espírito. Vemos, contudo, que o apóstolo João descreve a imagem de pedra recebendo espírito-pneuma para conceder animação, e não “fôlego” (cf. Ap.13:15)!

Portanto, a não ser que os imortalistas queiram dar lições de Bíblia aos escritores bíblicos, fica mais do que claro que o espírito que possuímos nada mais é do que o próprio fôlego de vida que nos dá animação ao corpo formado do pó. Isso explica o paralelismo bíblico entre fôlego e espírito (cf. Jó 33:4; Jó 32:8; Is.42:5), indicando que ambos tratam-se do mesmo elemento e não de elementos diferentes; ambos são aquilo que dá animação à matéria, nenhum sendo uma “alma imortal” ou algum elemento eterno constituído de personalidade, pois até mesmo os animais o possuem.

A imensa dificuldade por parte dos imortalistas em conciliar os conceitos de corpo, alma e espírito com a Bíblia Sagrada, é que eles usam os conceitos kardecistas e platônicos de dualidade de corpo e alma com o espírito sendo uma entidade consciente com personalidade. Quando tentam conciliar isso com a Bíblia (que nos deixa um conceito simples, claro e coerente desses princípios básicos) resulta em uma total confusão de ideias, pois o dualismo grego de corpo e alma influenciado pelas doutrinas de origens pagãs não se mistura com as doutrinas bíblicas acerca da criação do homem.

“Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego [ruach – espírito], e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (cf. Eclesiastes 3:19,20)

O espírito não é uma entidade que traz consigo vida e personalidade após a morte – Uma prova muito forte disso é o fato de que, falando de meros peixes, o salmista afirma: “Se lhes cortas a respiração [ruach], morrem, e voltam ao seu pó” (cf. Sl.104:29). Ora, nem mesmo qualquer imortalista chegaria ao ponto de alegar que o espírito-ruach dos peixes leva consigo personalidade e consciência na morte. Dizer que com os seres humanos é totalmente diferente é forçar o texto, pois a mesma expressão é empregada para ambos (cf. Sl.104:29; Gn.7:15; Gn.7:22; Ec.3:21).

O processo que acontece com os humanos é o mesmo que acontece com os peixes: “Escondes a tua face – e ficam perturbados, Tu ajunta o seu espírito – eles expiram, e voltam para o pó” (cf. Sl.104:29 – Young’s Literal Translation). Embora você provavelmente já tenha ouvido algo assim antes com relação aos seres humanos, essa passagem está falando de meros peixes! Compare, por exemplo, tal passagem acima (referindo-se a peixes) com o que Jó declara: “Se fosse a intenção dele, e de fato retirasse o seu espírito e o seu sopro, a humanidade pereceria toda de uma vez, e o homem voltaria ao pó” (cf. Jó 34:14,15).

Veja que o mesmo processo que ocorre com os seres humanos acontece também com os peixes: Deus retira o seu espírito [ruach], e eles voltam ao pó. Não há a mínima diferença entre o processo que ocorre com um e o que sucede ao outro. Claro, os imortalistas evidentemente preferiram traduzir na maioria das vezes “respiração” no Salmo 104:9 para os peixes e “espírito” para os homens em Jó 34:14,15. Mas a palavra usada no original hebraico é a mesma para ambos [ruach] e o processo que ocorre também é exatamente o mesmo.

Sendo assim, o “espírito” que Cristo e que Estêvão entregaram a Deus nada mais era do que as suas vidas humanas que voltavam para Deus que soprou-lhes o fôlego enquanto estes ainda viviam. O espírito que retorna para Deus é, como vimos, simplesmente o princípio animador da vida que é concedido por Deus tanto para homens como para animais durante a jornada terrestre.

Quem tem ouvidos para ouvir, OUÇA!

Continua…

Artigos relacionados no link abaixo:
A alma NÃO É imortal!

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Referências:

ATKINSON, Basil F. C. Life and Immortality. Londres, pp. 1-2;.
WOLFF, Hans Walter. Anthropology of the Old Testament. Filadélfia, 1974, p. 1.
BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno.
Unaspress, 1ª edição, 2007.
MORK, Dom Wulstan. The Biblical Meaning of Man. Milwaukee, Wisconsin, 1967, p. 34.
New Catholic Encyclopedia, 1967, Vol. XIII, p. 467.
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Paralelismo_sint%C3%A1tico>.
Léxico da Concordância de Strong, 1842.
§366 do Catecismo Católico.
CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?
Fonte: BANZOLI, Bruno. “A Lenda da Imortalidade da Alma”.

1 Comment

  1. Nilma Nelia Menezes de Santana

    Muito bom a interpretação da Bíblia! Esclarecedor demais!

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