A alma NÃO É imortal!

Conceitos Bíblicos sobre CORPO, ALMA E ESPÍRITO! – Parte 2

O “espírito” não é o nosso “verdadeiro eu”

Certa vez, vi uma exemplificação que compreende muito bem os sentidos reais de alma e espírito humanos no contexto da criação. A vida surge quando um corpo inanimado (pó) se une com a força vital, denominada de ruach (espírito ou respiração). Como resultado desta união, o homem tornou-se uma alma vivente (cf. Gn.2:7). Em momento nenhum lhe é infundida uma alma; ao contrário, ele se faz uma alma vivente quando Deus lhes sopra a respiração [fôlego/espírito] nos seus corpos.

Poderíamos compará-lo com a “eletricidade” nesta analogia. A questão que fica é: O que sucede à alma vivente, como resultado da junção da respiração com o pó? A resposta para essa pergunta pode ser ilustrada através da nossa ilustração com a lâmpada.

A lâmpada pode ser analogicamente comparada com o corpo e a eletricidade com o espírito. Enquanto a eletricidade circula por dentro da lâmpada, há luz. A luz é como a alma vivente, o ser racional. Quando, porém, desligamos o interruptor da luz e a eletricidade cessa de circular na lâmpada, para onde é que a luz vai? Simplesmente deixa de existir. Não vai para uma outra dimensão. Ao sair da lâmpada, ela simplesmente acaba.

Igualmente, quando Deus resolve desligar a “eletricidade” da nossa vida, o fôlego deixa de entrar  em nosso corpo. Para onde vai a alma vivente? Para onde vai a pessoa? Vai imediatamente para o Céu, para o inferno ou para o purgatório? Não, deixa de existir. Exatamente como a luz. A Bíblia descreve este estado como um sono pacífico (cf. Sl.13:3).

Mais um outro exemplo elucidativo: a alma é o resultado da junção do pó da terra com o fôlego da vida (cf. Gn.2:7). Assim, entendemos que não há uma alma viva [vivente] sem o corpo (pó) com o espírito (fôlego de vida).

É como a água, que é a combinação de oxigênio e hidrogênio. Mas se você separar os dois elementos a água desaparece. Não existe uma alma vivente sem o corpo com o fôlego de vida.

Poderíamos elucidar a questão da seguinte maneira:

LÂMPADA + ELETRICIDADE = LUZ
LÂMPADA – ELETRICIDADE = SEM LUZ
OXIGÊNIO + HIDROGÊNIO = ÁGUA
OXIGÊNIO – HIDROGÊNIO = SEM ÁGUA
PÓ DA TERRA + FÔLEGO DA VIDA [ESPÍRITO] = ALMA VIVENTE [vida]
PÓ DA TERRA – FÔLEGO DA VIDA [ESPÍRITO] = ALMA MORTA [sem vida]

Estêvão conhecia a Bíblia, e sabia que o espírito voltava para Deus que é quem o deu (cf. Ec.12:7). E quando ele entregou o espírito (cf. At.7:59,60), para onde Estêvão foi? Ele foi para o Céu ou para o inferno? Ele foi arrebatado? Foi levado para junto de Cristo? Não. A Bíblia diz simplesmente que ele “adormeceu” (cf. At.7:60).

Igualmente, Jesus Cristo entrega o espírito no momento da morte (cf. Lc.23:46), mas a Bíblia afirma que a sua alma esteve no Sheol (cf. At.2:27), no coração da terra durante os três dias e três noites em que esteve morto (cf. Mt.12:40), e não no Paraíso! Além disso, declara à Maria Madalena, após três dias que esteve morto, que ainda não subiu para o Pai (cf. Jo.20:17). Isso nos revela que o comprometimento de seu espírito (cf. Lc.23:46) não foi o seu regresso ao Pai. O espírito separado do corpo não é o “real” você!

Na morte, o real volta ao pó (cf. Gn.3:19). O espírito de todos volta para Deus (cf. Ec.12:7), pois foi Deus quem o deu. Esse é o princípio básico da vida: a vida deriva de Deus, é sustida por Deus e volta para Deus por ocasião da morte. O corpo se desintegra (volta a ser pó) e o fôlego da vida (espírito), que Deus assoprou originalmente nas narinas de Adão, retorna para Ele. Esse é um princípio universal de que Deus recebe o espírito de todos, evidentemente não sendo o nosso “verdadeiro eu”.

Outra designação comum na Bíblia com relação ao sentido de “alma” é de “vida”. A vida é o resultado do que o homem foi formado (ou seja, pó da terra + fôlego de vida = vida [alma vivente]). Por isso mesmo, em muitas ocasiões a palavra “alma” é corretamente traduzida simplesmente por “vida” ou como “vida eterna” no sentido ampliado de alma-psiquê empregado no Novo Testamento.
Tal sentido secundário não adultera o sentido primário simplesmente porque não apresenta nenhuma contradição com outras verdades bíblicas (como Gênesis 2:7 que narra o simplismo bíblico da alma como resultado e não como parte da porção), e, ainda mais, é um significado secundário plausível uma vez que a vida é o resultado dos elementos que tornaram o homem um ser animado.

Em outras palavras, se uma “alma vivente” é simplesmente um “ser vivo”, a alma pode ser assim classificada, então, como a própria vida humana. Veremos mais detalhes sobre isso neste estudo ao explorarmos algumas passagens bíblicas tais como, por exemplo, a de Mateus 10:28, usada pelos imortalistas como suposta “prova” da imortalidade da alma.

O corpo é a alma visível – A partir do relato da criação humana em Gênesis 2:7, podemos perceber claramente que o homem é uma alma e possui um fôlego de vida que dá a animação ao corpo formado do pó.

O que seria então o “corpo”? Nada mais é do que a alma visível. A alma é a pessoa integral, como o resultado do corpo formado do pó da terra com a fusão do fôlego de vida [espírito] soprado em suas narinas para o homem tornar-se um ser vivente. Dito em termos simples, o corpo não é a prisão da alma, mas reflete a própria alma como visivelmente ela é. O Dr. Hans Walter Wolff faz a seguinte ponderação:

“O que nephesh [alma] significa? Certamente não a alma [no sentido dualístico tradicional] (…) O homem não possui nephesh [alma], ele é nephesh [alma], ele vive como nephesh [alma]”

A Bíblia confirma tal posição relatando inúmeras vezes a morte do corpo como a morte da alma (ver Lv.19:28; 21:1, 11; 22:4; Nm.5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; Ag.2:13). Nestas passagens, o original hebraico traz alma [nephesh] embora fosse o corpo (ou “carne”) que jazia morto. Por exemplo: “Todos os dias da sua consagração para o Senhor, não se aproximará de um cadáver” (cf. Nm.6:6). No original hebraico dessa mesma passagem lemos: “kol-yemêy hazziyro layhvh `al-nephesh mêth lo’ yâbho’” (cf.Nm.6:6).

Também lemos em Números 9:7 – “Estamos imundos por termos tocado o cadáver de um homem; por que havemos de ser privados de apresentar a oferta do Senhor, a seu tempo, no meio dos filhos de Israel?” (cf. Nm.9:7); no original hebraico: “vayyo’mru hâ’anâshiym hâhêmmâh ‘êlâyv ‘anachnu themê’iymlenephesh ‘âdhâm lâmmâh niggâra` lebhiltiy haqribh ‘eth-qorbanAdonay bemo`adho bethokh benêy yisrâ’êl” (cf. Nm.9:7).

Lemos também em Números 19:11 – “Aquele que tocar em algum morto, cadáver de algum homem, imundo será sete dias” (cf.Nm.19:11); no original hebraico: “hannoghêa` bemêth lekhol-nephesh ‘âdhâm vethâmê’ shibh`ath yâmiym” (cf. Nm.9:11). E dois versos à frente: “Todo aquele que tocar em algum morto, cadáver de algum homem, e não se purificar, contamina o tabernáculo do Senhor; essa pessoa será eliminada de Israel; porque a água purificadora não foi aspergida sobre ele, imundo será; está nele ainda a sua imundícia” (cf. Nm.19:13). No texto original hebraico: “kol-hannoghêa` bemêth benephesh hâ’âdhâm ‘asher-yâmuth velo’yithchathâ’ ‘eth-mishkan Adonay thimmê’ venikhrethâh hannephesh hahiv’miyyisrâ’êl kiy mêy niddâh lo’-zoraq `âlâyv thâmê’ yihyeh `odhthum’âtho bho” (cf. Nm.19:13).

Poderíamos ficar o livro todo repassando inúmeras passagens bíblicas que demonstram de maneira clara que para os hebreus o corpo nada mais era do que a própria alma visível, não tinha absolutamente parte nenhuma com qualquer segmento imaterial ou imortal. Por isso, o cadáver de um homem era frequentemente relacionado à alma que jazia morta porque o corpo é a alma visível.

Para Moisés e para os hebreus, a alma nunca foi imortal. Mas, para aquelas pessoas que insistem em se opor à doutrina da mortalidade bíblica, “estarão em apuros para explicar aquelas passagens que falam de uma pessoa morta como uma alma-nephesh morta (Lev. 19:28; 21:1, 11; 22:4; Núm. 5:2; 6:6, 11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13: Ageu 2:13). Para elas é inconcebível que uma alma imortal possa morrer com o corpo.”

A alma não é algo imaterial – Nenhum escritor bíblico tinha em mente a crença de que o corpo é a prisão de uma alma imaterial dentro dele. Isso fica muito claro na Bíblia por inúmeras razões. Em primeiro lugar, porque a Bíblia afirma que a alma emagrece:

“E ele lhes cumpriu o seu desejo, mas enviou magreza às suas almas” (cf. Sl.106:5). Evidente que, se a alma fosse uma entidade imaterial, então ela não poderia “emagrecer” de jeito nenhum! É óbvio que a alma é o ser integral do homem e, sendo assim, ela também emagrece junto com o corpo (lembre-se de que o corpo é a alma visível).

Se a alma emagrece, então ela não é imaterial mas sim algo bem material, que nasce, que cresce, que emagrece, que engorda, que sente sede, que envelhece e que morre. Se a crença dos escritores bíblicos fosse de que apenas o corpo que sofre todas essas alterações físicas naturais (como nascer, crescer, emagrecer, morrer, etc), então o salmista certamente teria empregado a palavra hebraica bashar, que significa “corpo”, e não nephesh (alma). O mesmo pode ser dito com relação aos demais pontos que apresentarei a seguir.

Isaías nos diz que “será também como o faminto que sonha, que está a comer, porém, acordando, sente-se vazio; ou como o sedento que sonha que está a beber, porém, acordando, eis que ainda desfalecido se acha, e a sua alma com sede; assim será toda a multidão das nações, que pelejarem contra o monte Sião” (cf. Is.29:8). Uma entidade imaterial não pode sentir sede, pois a sede é uma característica do corpo físico. No máximo poderia sentir sede em um sentido puramente metafórico, como quando o salmista afirma que tem “sede de ti [de Deus]” (cf. Sl.143:6). Mas no contexto no qual o texto de Isaías está inserido percebemos facilmente que se trata não de uma linguagem poética ou alegórica, mas natural e literal.

Ele fala de pessoas fisicamente famintas que sonham em comer algo, mas que acordam e veem que estão vazias, e de pessoas com sede que sonham que estão bebendo algo, mas que acordam e ainda estão desfalecidas, e a sua alma com sede. Sede do que? Sede de Deus? Não, sede de beber algo, como o contexto indica. Trata-se de pessoas fisicamente com sede, que sonham em estar bebendo algo, mas acordam e percebem que não beberam nada, que ainda estão desfalecidas fisicamente, que a sua alma continua com sede. Nisso fica muito claro que a alma é o próprio ser vivente como pessoa, e não algo imaterial dentro dele.

Outro exemplo semelhante ocorre quando os israelitas murmuravam no deserto na insistência por carne: “Agora, porém, seca-se a nossa alma [nephesh], e nenhuma cousa vemos senão este maná” (cf. Nm.11:16). Eles estavam falando de um maná físico, e de uma sede real, não meramente de algo simbólico ou em algum sentido espiritual. Portanto, a alma que está seca se refere ao próprio físico que clama por outra comida além do maná. Ou seja, a alma é identificada novamente como sendo algo físico e visível na forma do corpo, e não em uma substância imaterial residente dentro do corpo.

Existem muitas coisas que um elemento imaterial não pode fazer. Uma dessas é chorar, por exemplo. Contudo, lemos na Bíblia que a alma de tristeza verte lágrimas: “Chora de tristeza a minha alma; reconfortai-me segundo vossa promessa” (cf. Sl.119:28).

Se a alma derrama lágrimas, então ela não é imaterial. Nada há nas Escrituas nada que possa mostrar que a alma é um segmento imaterial na natureza do homem, afinal, se assim fosse esperaríamos que ela não pudesse derramar lágrimas, uma vez sendo isso um fenômeno natural, material, físico, visível.

Além disso, a Bíblia afirma categoricamente que a alma desce à cova após a morte (cf. Jó 33:18,22,28,30; Is.38:17; Sl.94:17). Se a alma fosse algo imaterial, então ela de maneira nenhuma poderia descer à sepultura na morte (ela deveria era subir ao Céu ou ir para o inferno). Também sabemos que a Bíblia afirma inúmeras e incansáveis vezes que a alma morre, e uma entidade imaterial não pode falecer (ver a morte da alma em Nm.31:19; Nm.35:15,30; Js.20:3,9; Jo.20:3,28; Gn.37:21; Dt. 19:6, 11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4,20; Jz.16:30; Nm.23:10; Mt.10:28; Ez.22:25,27; Jó 11:20; At.3:23; Tg.5:20, etc).

Jó fala que “se comi os seus frutos sem dinheiro, e sufoquei a alma dos seus donos, por trigo me produza cardos, e por cevada joio. Acabaram-se as palavras de Jó” (cf. Jó 31:39,40). “Sufocar a alma” significa sufocar a própria pessoa, porque algo imaterial não pode ser sufocado. Por fim, a Bíblia declara a alma como em Gênesis 2:7: uma pessoa, e não uma entidade imaterial.

Assim podemos entender que Abraão “tomou a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as almas que lhe acresceram em Harã; e saíram para irem à terra de Canaã; e chegaram à terra de Canaã” (cf. Gn.12:5). Abraão não estava tomando para si substâncias imateriais, mas sim algo bem material, pessoas, de carne e osso.

Concluímos, pois, que a alma não é um segmento imaterial, mas sim a própria vida humana como o resultado da junção do pó da terra com o fôlego de vida (para dar animação ao corpo morto), resultando em um ser vivo. Enquanto o dualismo platônico ensina que a alma-psiquê é algo imaterial, intangível, invisível, eterno e imortal, as Sagradas Escrituras apresentam a alma como referência a criaturas terrestres, incluindo os animais, referindo-se a algo bem material, tangível, visível e mortal.

Sumariando, corpo e alma não são duas pessoas dentro de um único ser (um mortal e outro imortal), mas sim duas características da mesma pessoa. A alma é a sede dos pensamentos, que também perecem com a morte (cf. Sl.146:4). O corpo é um homem como um ser concreto. Isso não significa dualismo entre corpo e alma, mas sim duas características da mesma pessoa.

Como disse Dom Wulstan Mork:

“Não havia a dicotomia grega de alma e corpo, de duas substâncias opostas, mas uma unidade, homem, que é bashar [corpo] de um aspecto e nephesh [alma] de outro. Bashar, pois, é a realidade concreta da existência humana, nephesh é a personalidade da existência humana”

De fato, a própria Enciclopédia Católica fez uma interpretação muito feliz daquilo que realmente significa “alma”, sem ter parte com algum segmento imaterial preso dentro do homem:

“Nephesh [né·fesh] é um termo de muito maior extensão do que nossa ‘alma’, significando vida (Êx 21.23; Dt 19.21) e suas várias manifestações vitais: respiração (Gn 35.18; Jó 41.13,21), sangue [Gn 9.4; Dt 12.23; Sl 140(141).8], desejo (2 Sm 3.21; Pr 23.2). A alma no Antigo Testamento significa, não uma parte do homem, mas o homem inteiro — o homem como ser vivente. Similarmente, no Novo Testamento significa vida humana: a vida duma entidade individual, consciente (Mt 2.20; 6.25; Lu 12.22-23; 14.26; Jo 10.11, 15, 17; 13.37)”

A alma na cova – Outro fator importante que mostra que os escritores do Antigo e do Novo Testamento não imaginavam uma natureza dualista do ser humano é a resposta para a pergunta: para onde vai o corpo quando morre? Biblicamente, para a cova, a sepultura. De acordo com os imortalistas, a alma tem um destino diferente do corpo, prosseguindo de imediato ao Céu ou ao inferno.

Sendo a alma a própria pessoa integral como o resultado do pó da terra com o fôlego de vida, entendemos que não há uma alma viva sem a combinação de corpo e espírito. Sem corpo não há uma alma vivente e sem espírito também não há alma viva.

O que a Bíblia diz a respeito disso? A alma regressa ao lugar de silêncio (a sepultura) ou seria levada para tormentos eternos ou imediatamente ao Céu, tendo destinos diferentes do corpo? No livro de Jó temos a resposta a esta questão: “Para apartar o homem do seu designo e livrá-lo da soberba; para livrar a sua alma da cova, e a sua vida da espada” (cf. Jó 33:18). Como vemos, o lugar para onde a alma regressaria seria à cova (sepultura), e não para uma outra dimensão! Também continuamos lendo no mesmo capítulo: “Sua alma aproxima-se da cova, e sua vida, dos mensageiros da morte” (cf. Jó 33:22).

Novamente é relatado o fato bíblico de que o lugar para onde a alma se aproxima não é para o Céu ou para o inferno, mas para a cova. E novamente continuamos lendo: “Ele resgatou a minha alma, impedindo-a de descer para a cova, e viverei para desfrutar a luz” (cf. Jó 33:28). A clareza da linguagem é tão evidente que não necessita de maiores elucidações. O lugar para onde a alma iria era para a cova, não era o destino apenas do corpo!

Por que Eliú no livro de Jó omite completamente que a alma suba consciente para o Céu, inferno, ou qualquer outro canto, mas diz que ela desce para a cova? Ele estava tentando enganar os teólogos da doutrina da imortalidade? Bom, talvez. Mas, apesar de ter todas as possibilidades de narrar a sobrevivência da alma à parte do corpo, já assegurada em algum lugar “entre os salvos”, ele afirma de maneira categórica que o local da alma é na cova. Ele manifesta claramente a sua visão holista bíblica de que a alma não tem destinos diferentes do corpo após a morte. Ademais, além de relatar que a sua alma desceria para a cova caso morresse, ele ainda afirma que, uma vez que continua com vida, “viverei para desfrutar a luz”.

Em outras palavras, caso ele morresse já não veria mais luz nenhuma! Como se isso tudo não fosse suficientemente claro, o salmista declara o mesmo ponto de vista do livro de Jó, assumindo exatamente a mesma posição de que não é apenas o corpo que jaz na sepultura, mas a alma também: “Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar do silêncio” (cf. Sl.94:17). Ora, qual era o lugar do silêncio no qual o salmista declara que partiria a sua alma?
Evidentemente não é uma referência ao Céu com altos louvores e muito menos aos terrores e gritarias do fogo do inferno; sendo, antes, uma clara referência à sepultura, o verdadeiro lugar do silêncio para o qual o salmista afirma categoricamente que não o corpo tão somente, mas também a alma partiria após a morte.

Quando o rei Ezequias estava à beira da morte, ele relata a sua convicção de que a sua alma partiria para a cova, para a corrupção: “Foi para minha paz que tive eu grande amargura; tu, porém, amaste a minha alma e a livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de ti todos os meus pecados” (cf. Is.38:17). O Senhor livrou a sua alma de ir para onde? Pro Céu? Pro inferno? Pro purgatório? Não, de ir pra cova. Ezequias sabia que o destino de sua alma seria para a cova, para o lugar de corrupção. Por isso mesmo, ele clama pela manutenção de sua vida no capítulo inteiro (cf. Isaías 38).

No Salmo 88:3, o salmista expressa a mesma ideia: “Porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura” (cf. Sl.88:3).

Outro fato interessante encontra-se no Salmo 49:8,9, que diz: “Pois o resgate da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre, para que viva para sempre e não sofra decomposição” (cf. Sl.49:8,9). Aqui fica claro que a alma também pode sofrer decomposição; contudo, é passível de ser resgatada [na ressurreição] para viver para sempre e não sofrer decomposição [na sepultura].

Com toda a clareza necessária, a Bíblia não deixa espaços para a heresia de que o corpo é a prisão de uma alma imaterial e imortal que tem destinos diferentes após a morte partindo para o Céu ou para o inferno. Antes, a alma, como é a própria pessoa humana como o resultado do pó da terra com o fôlego da vida (cf. Gn.2:7), jaz na sepultura.

Não obstante a isso, o salmista afirma: “Na prosperidade repousará a sua alma, e a sua descendência herdará a terra” (cf. Sl.25:13). A alma também “repousa”, não é só o corpo que dorme!

Muito embora os escritores bíblicos tivessem a sua disposição a plena condição de relatar que o corpo somente é que desce a cova ou que “repousa”, eles insistem em declarar que a alma [nephesh] desce a cova, a corrupção, ao silêncio.

Ponderamos: iriam todos eles relatar que a alma jaz na cova caso tivessem em mente que após as suas mortes a sua alma partiria logo para qualquer lugar, menos para a cova? É óbvio que não! A crença dos escritores bíblicos era de uma natureza holista e não dualista do ser humano, de modo que a alma não escapava da sepultura.

É digno de nota, também, o fato de que nunca em passagem nenhuma da Bíblia há qualquer declaração de algum relato da alma subindo ao Céu ou descendo para o inferno. Em absolutamente todas as vezes em que alguém relata o local onde a sua alma partiria com a morte, diz respeito somente a sepultura.

Evidentemente a alma descer para a cova é a conclusão dos escritores bíblicos diante do fato de que a alma morre, e é exatamente isso o que veremos a seguir. Afinal, “que homem há, que viva, e não veja a morte? Livrará ele a sua alma do poder da sepultura?” (cf. Sl.88:48). Não! Ninguém! Todos os homens são mortais e não tem uma vida inerentemente imortal; a alma de todos está sujeita ao poder da sepultura! O salmista deixa nítido que todos os homens morrem e descem à sepultura, e que esta morte não se resume apenas ao corpo, mas também à alma, fazendo a pergunta retórica: “livrará ele a sua alma do poder da sepultura”?

Diante de tudo isso, apenas alguém bem mal intencionado para acreditar que os escritores bíblicos acreditavam que a alma tinha destinos diferentes do corpo após a morte, uma vez que a Bíblia apresenta tantas vezes não só a morte da alma, mas também a sua descida ao silêncio e a cova (sepultura), bem como que a alma está “repousando”. Sendo assim, a visão bíblica, como vimos, é holista, e não dualista.

Paralelismo entre corpo e alma – Somente aquele que entende que corpo e alma são duas características da mesma pessoa e não duas coisas opostas, entenderá o paralelismo bíblico entre corpo e alma: “Ó Deus, tu és o meu Deus forte, eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de Ti; meu corpo Te almeja” (cf. Sl.63:1). Corpo e alma não são dois opostos; doutra forma seria impossível que eles fossem colocados intercambiavelmente. Isso seria uma afronta para a doutrina dualista, que prega exatamente o contrário disso, isto é, que corpo e alma são dois opostos, dois extremos distintos, material e imaterial, mortal e imortal.

Qual nada, ambos são colocados intercambiavelmente em um paralelismo bíblico, porque são duas manifestações da mesma pessoa, e não formas diferentes de existência. Nisso fica muito claro a visão bíblica holista em detrimento da doutrina dualista.

Colocar corpo e alma intercambiavelmente como paralelismo seria uma completa afronta à visão grega dualista, que prega exatamente o inverso disso, isto é, que um é antagônico – oposto – ao outro.

O mesmo paralelismo é feito no Salmo 84:2 entre alma, coração e carne e também em Jó 14:22 incluindo corpo e alma.

Devemos sempre lembrar que, de acordo com o dicionário, paralelismo é “um encadeamento de funções sintáticas idênticas ou um encadeamento de orações de valores sintáticos iguais. Orações que se apresentam com a mesma estrutura sintática externa, ao ligarem-se umas às outras em processo no qual não se permite estabelecer maior relevância de uma sobre a outra”67.

Paralelismo é, portanto, quando duas linhas expressam o mesmo pensamento em linguagem ligeiramente diferente, ou quando o pensamento da primeira linha é completado, ampliado ou intensificado na segunda, tendo a mesma aplicação prática. Noutras palavras, se corpo e alma fossem dois distintos opostos como pregam os dualistas (o corpo mortal e a alma imortal; o corpo corruptível e a alma incorruptível; o corpo material e a alma imaterial), então o que esperaríamos seria justamente uma antítese, isto é, um contraste nítido entre ambos que expressaria tal discrepância.

Contudo, o que vemos na Bíblia é que corpo e alma são usados intercambiavelmente como paralelismo, porque não são dois opostos e nem duas “pessoas” dentro de um único ser, mas sim duas características da mesma pessoa, pois os dois estão intimamente relacionados; o corpo é a forma exterior da alma e a alma é a vida interior do corpo humano. Por isso, eles não são opostos (como ensinavam os gregos dualistas), mas intercambiáveis (como apregoa o holismo bíblico). Tal definição fere gritantemente o conceito platônico da “alma imortal”.

A sede dos pensamentos – Alguma parte dos defensores da imortalidade da alma sustentam que o fato dela ser utilizada biblicamente como fonte dos pensamentos humanos significa que ela é um segmento imortal. Sustentam a diferença entre a parte mortal (que não pensa) e a imaterial implantada por Deus (que comanda os sentimentos humanos). Essa conclusão, contudo, carece inteiramente de respaldo teológico. Isso porque o coração também é utilizado biblicamente como sede dos pensamentos, ainda mais do que a própria alma.

Por exemplo, é nos dito que o coração é sede de alegria (cf. Pv.27:11), coragem (cf. Sm.17:10), tristeza (cf. Ne.2:2), desânimo (cf. Nm.32:7), perturbação (cf. 2Rs.6:11), tenção (cf. Is.35:4), ódio (cf. Lv.19:17), amor (cf. Dt.13:3), confiança (cf. Pv.31;11), generosidade (cf. 2Cr.29:31), inveja (cf. Pv.23:17). O coração estremece (cf. 1Sm.28:5), excita-se (cf. Sl.38:10), desmaia (cf.Gn.45:26), adoece (cf. Pv.13:13), desfalece (cf. Gn.42:28), agita-se (cf. Pv.13:12).

Em outras ocasiões, o coração é claramente indicado como sendo a fonte dos pensamentos e sentimentos do ser humano: “Pois do coração procedem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias” (cf. Mt.15:39). Por isso mesmo, “sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (cf. Pv.4:23). E quando Davi diz a Salomão: “E você, meu filho Salomão, reconheça o Deus de seu pai, e sirva-o de todo o coração e espontaneamente, pois o Senhor sonda todos os corações e conhece a motivação dos pensamentos” (cf. 1Cr.28:9).

Portanto, se a alma é imortal porque em determinadas ocasiões é utilizada como fonte de sentimentos e emoções, então o coração certamente não pode deixar de ser também. O próprio fato de organismos materiais que perecem com a morte do corpo serem utilizados como sede dos pensamentos juntamente com a alma, nos mostra que ambos não são duas partes distintas (uma pensante e outra matéria irracional), mas sim duas manifestações do mesmo ser mortal.

Não existe um aspecto espiritual em contraposição ao físico, nem o ser “interior” em oposição ao “exterior”, mas sim o ser como criatura viva, consciente e pessoal. O paralelismo bíblico entre alma e coração como sede dos pensamentos nos mostra que eles não são duas entidades distintas, mas consistem em duas maneiras de se referir a si próprio. Os escritores bíblicos se utilizavam de paralelismo entre coração e espírito como sede dos sentimentos: “O coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido faz secar os ossos” (cf. Pv.17:22).

E também de paralelismo entre coração e alma: “O Senhor, o seu Deus, está pondo vocês à prova para ver se o amam de todo o coração e de toda a alma” (cf. Dt.13:3). Tal paralelismo entre coração e alma nos mostra que ambos são tão somente agentes materiais utilizados intercambiavelmente ao tratar-se dos pensamentos e sentimentos humanos.

O coração e a alma não são dois opostos (um material e outro imaterial; um mortal e outro imortal), mas dois agentes que estão intimamente ligados entre si, sendo duas características da mesma pessoa, e não entidades opostas.

Isso nos permite perfeitamente acentuarmos o parelelismo entre alma e coração e colocarmos ambos como sede dos pensamentos, o que infelizmente não é possível no modelo dualista tradicional. A verdade bíblica é a de que o sopro de Deus que nos traz fôlego de vida é visivelmente presente na forma da respiração, e a alma é visivelmente presente na forma do corpo. Por isso, corpo, alma, espírito e coração não são opostos e nem distintos, mas características da mesma pessoa, o ser integral holista do ser humano. A Bíblia Sagrada, em sua totalidade, contradiz gritantemente os conceitos platônicos da “alma imortal”.

A morte da alma

No Antigo Testamento – A Bíblia relata a morte da alma tantas inúmeras vezes que eu tive que resumir citações condensadas aqui ao invés de passar uma a uma. O arsenal bíblico da morte da alma é tão significativo ao ponto de nenhum exegeta sério poder contestar que este é um fato. Ela não sobrevive a parte do corpo, mas, pelo contrário, morre com ele, pelo que não existe “alma vivente” sem o corpo com o fôlego de vida. Quando o fôlego de vida [espírito] é retirado, nós que somos almas viventes nos tornamos almas mortas. É por isso que a Bíblia fala tão frequentemente na morte da alma também.

No Antigo Testamento, os escritores bíblicos quase cansaram de falar que a alma morre. No texto original hebraico, a alma morria, era transpassada, podia ser morta, morria para esta vida e morria para a próxima, a alma morria a toda hora. Josué conseguiu o “feito” de exterminar muitas almas… (ver Josué 10:28 no original hebraico: “Ve’eth-maqqêdhâh lâkhadh yehoshua` bayyom hahu’ vayyakkehâlephiy-cherebh ve’eth-malkâh hecherim ‘othâm ve’eth-kâl-hannephesh ‘asher-bâh lo’ hish’iyr sâriydh vayya`as lemelekh maqqêdhâh ka’asher `âsâhlemelekh yeriycho”).

A tradução literal ficaria assim: “Naquele dia tomou Maquedá. Atacou a cidade e matou o rei a espada e exterminou toda a alma que nela vivia, sem deixar sobreviventes. E fez com o rei de Maquedá o que tinha feito com o rei de Jericó”. E não foi só essa vez que Josué conseguiu o feito extraordinário de matar não só o corpo, mas a alma também: em Josué 10:30, 31, 34, 36 e 38, a alma costumava morrer sempre. No original hebraico, Josué “matou a espada todas as almas” (cf. Js.10:30), e “exterminou toda a alma” (cf. Js.10:28). Definitivamente, se existia uma imortalidade da alma, então Josué deveria ganhar uma medalha de honra ao mérito por tais feitos.

Se alguém “matava uma alma acidentalmente”, podia fugir para uma cidade de refúgio (cf. Js.20:3). Era possível aniquilar uma alma sem intenção (cf. Js.20:9). A alma morria tantas vezes, que uma referência completa a todas as passagens nos faria superar os limites de escopo deste livro. É claro que a maioria das versões bíblicas a nossa disposição simplesmente não traduzem a palavra “alma” como colocada no original hebraico [nephesh] pelo simples fato de que isso seria uma afronta à teoria imortalista de que é só o corpo que morre e a alma não. Os personagens bíblicos não acreditavam que seria apenas o corpo que morreria, pois eles categoricamente afirmam: “Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu” (cf. Nm.23:10).

Veja que ele não diz: “que meu corpo morra a morte dos justos”, o que presumivelmente seria a única coisa que os defensores da imortalidade da alma afirmariam. A própria alma não escaparia da morte, e essa era a tão forte convicção de toda a Bíblia. A esperança deles não era que as suas almas fossem imortais, mas sim que elas morressem as mortes dignas dos justos, isto é, com honra. Este seria o fim deles, e não um início de uma nova existência!

Tal convicção de que a alma também não escapa da morte pode ser encontrada mais inúmeras vezes: “Dai-me um sinal seguro de que salvareis meu pai, minha mãe, meus irmãos, minhas irmãs e todos os que lhe pertencem e livrareis as nossas vidas da morte” (cf. Js.2:13). Caso os israelitas atacassem Jericó, as “vidas” da família de Raabe seriam mortas. Poucos sabem, contudo, que o original hebraico verte novamente a morte da alma-nephesh ao invés de “vida” como é traduzido por muitas versões. A Versão King James é uma das versões que traduzem nesta passagem corretamente a morte da alma, como sendo o próprio término da vida, a cessação da existência.

Em Deuteronômio 19:11, a tradução em português assim reza: “Mas, se alguém odiar o seu próximo, ficar à espreita dele, atacá-lo e matá-lo, e fugir para uma dessas cidades…”. Contudo, o original hebraico traz novamente a morte da alma: “Vekhiy-yihyeh ‘iysh sonê’lerê`êhu ve’ârabh lo veqâm `âlâyv vehikkâhu nephesh vâmêth venâs’el-‘achath he`âriym hâ’êl”. “Matá-lo” aqui é a tradução do original hebraico que traz nephesh: matar a alma!

Em Jó 27:8, quando lemos que Deus eliminaria os ímpios, tirando a sua vida, o original traduz por “tira a alma” [nephesh]: “Pois, qual é a esperança do ímpio, quando é eliminado, quando Deus lhe tira a alma [nephesh]”? O fato bíblico é que “a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4; Ez.18:21). Se Deus tivesse feito a alma imortal, teria dito a Ezequiel que “a alma que pecar viverá eternamente em estado desencarnado”; ou, então, diria que “a alma que pecar nunca morrerá”! Contudo, vemos que nem mesmo a alma está isenta da morte.

Os autores bíblicos usavam e abusavam da morte da alma. Outro fato interessante encontra-se no Salmo 49:8,9, que diz: “Pois o resgate da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre, para que viva para sempre e não sofra decomposição” (cf. Sl.49:8,9). Se a alma fosse algo à parte do corpo que se desliga deste por ocasião da morte, então ela jamais poderia em circunstância alguma sofrer decomposição. O que deveria sofrer decomposição seria o corpo, somente, e não a alma. Contudo, o verso 8 faz menção a nephesh – alma!

A verdade é que no original hebraico a alma é explicitamente morta: “Para que nelas se acolha aquele que matar alguém [nephesh] involuntariamente” (cf. Nm.35:15). Evidentemente o hebraico nephesh [alma] nunca é traduzido na maior parte das versões pelo simples fato de que isso iria suscitar o questionamento de que a alma claramente morre com a morte do corpo. Por isso, traduzem até o “matar alguém”… e daí pulam imediatamente para o: “…involuntariamente”.
Não traduzem por “matar alguma alma”, pois desta forma é muito mais fácil enganar os leitores que não tem como descobrir usando apenas a linguagem disponível no texto em português se o verso verte a morte apenas do corpo ou também da alma. O que bem podemos observar, ao longo de toda a Bíblia, é que a alma morre tanto quanto o corpo (ou até mais), mas isso é escondido dos leitores pela maioria das traduções. Tais casos semelhantes ocorrem inúmeras vezes nas Escrituras.

Alguns, na tentativa de provar que a alma é imortal, argumentam usando o texto de 1ª Reis 17:21-22, que assim diz: “E estendendo-se três vezes sobre o menino, clamou ao Senhor, e disse: Ó Senhor meu Deus, rogo-Te que faças a alma deste menino tornar a entrar nele. E o Senhor atendeu à voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu” (cf. 1Rs.17:20-22). Mas, na realidade, tudo o que este texto nos mostra é que a alma do menino, que estava morta, voltou a ter vida – ele tornou-se novamente um ser vivente, uma alma vivente. Corrobora com isso a variante linguística do texto, como observa o Dr. Samuelle Bacchiocchi:

“Esta leitura, que se acha à margem da versão AV, apresenta uma construção linguística diferente. O que retorna às partes interiores é a respiração. A alma como tal nunca se liga a algum órgão ‘interior’ do corpo. O retorno da respiração às partes interiores resulta no reavivamento do corpo, ou, poderíamos dizer, faz com que se torne uma vez mais uma alma vivente”

Concorda com isso também o significado secundário de alma como sendo “vida”. Cristo disse que aquele que queria segui-lo teria que odiar a sua alma-psiquê (cf. Jo.12:25). Odiar a “si mesmo”69 ou a um elemento imortal que o próprio Deus tenha implantado no homem, como creem os imortalistas, não faz qualquer sentido, razão pela qual a maioria das traduções bíblicas tem vertido a passagem por “vida”70. Isso é o mesmo que ocorre em 1ª Reis 17:22, onde alma aparece no sentido de vida. A “vida” voltou ao menino, como diz a NVI: “O Senhor ouviu o clamor de Elias, e a vida voltou ao menino, e ele viveu” (cf.1Rs.17:22), e desta forma ele passou a ser uma alma vivente novamente, não mais uma alma morta71. Sobre isso, Bacchiocchi acrescenta:

“Até mesmo o Interpreter’s Dictionary of the Bible [Dicionário bíblico do intérprete], de concepção liberal, em seu verbete sobre a morte declara explicitamente: ‘A partida do nephesh [alma] deve ser vista como uma figura de linguagem, pois não continua a existir independentemente do corpo, mas morre com ele (Núm. 31:19; Juí. 16:30; Eze. 13:19). Nenhum texto bíblico autoriza a declaração de que a ‘alma’ é separada do corpo no momento da morte. O ruach, ‘espírito’, que faz do homem um ser vivente (cf.Gên. 2:7), e que ele perde por ocasião da morte, não é, falando-se apropriadamente, uma realidade antropológica, mas um dom de Deus que retorna a Ele ao tempo da morte. (Ecl. 12:7)’”

Além disso, aquele que matasse alguma alma deveria ficar sete dias fora do arraial: “Acampai-vos por sete dias fora do arraial; todos vós, tanto o que tiver matado alguma alma [nephesh], como o que tiver tocado algum morto” (cf. Nm.31:9). Se tais “exterminadores de alma” vivessem no século presente e vissem o que o conceito de “alma” se tornou após a adoção universal do conceito platônico para este termo, iriam ficar realmente assombrados em descobrir que mataram almas imortais!

A morte do corpo está sempre ligada à morte da alma porque o corpo é a forma visível da alma. Nós não temos uma alma presa dentro de nós que é liberta por ocasião da morte; nós somos essa “pessoa” que morre e que revive por ocasião da ressurreição (cf. Ap.20:4)! É por isso que, quando Josué conquistou as várias cidades além do Jordão, a Bíblia nos diz repetidas vezes que “ele destruiu totalmente toda alma [nephesh]” (cf. Js.10:28, 30, 31, 34, 36, 38). Definitivamente não haviam avisado Josué que no máximo o que ele matou foi somente um corpo!

Em Deuteronômio 11:9, lemos que “havendo alguém que aborrece o seu próximo, e lhe arma ciladas, e se levanta contra ele, e o fere de golpe mortal, e se acolhe a uma destas cidades…”. A frase “o fere de golpe mortal” é uma infeliz tradução do original hebraico que diz “fere a alma-nephesh mortalmente”. Jamais poderíamos imaginar que um cidadão iria com a sua espada transpassar tanto um indivíduo num combate ao ponto de matar até a alma “imortal” e imaterial que essa pessoa possui dentro dela! É nítido que a alma não era crido como sendo algo imaterial com imortalidade preso dentro de nós, o que também fica claro em Jeremias:

“Então disse eu: Ah, Senhor Deus! Verdadeiramente enganaste grandemente a este povo e a Jerusalém, dizendo: Tereis paz; pois a espada penetra-lhe até à alma” (cf. Jr.4:10). Se a alma fosse algo imaterial, não poderia ser atingida por objeto algum material e nem ser penetrada! Uma entidade imortal e imaterial não pode ser ferida com espada ou algum outro instrumento; contudo, lemos que “vos estejam à mão cidades que vos sirvam de cidades de refúgio, para que ali se acolha o homicida que ferir a alguma alma [nephesh] por engano” (cf. Nm.35:11).

Aqui o “ferir” é propriamente a morte, porque o que a atinge é um homicida. Obviamente a morte do corpo é a morte da alma, pelo fato de que a alma não é um segmento imaterial que não pode ser atingido e nem destruído. Nenhum autor bíblico acreditava que existia uma alma imortal e imaterial presa dentro do nosso corpo, pois, se assim fosse, então a alma jamais e em circunstância alguma poderia ser morta e nem destruída em hipótese nenhuma!

Isaías fala a respeito de Jesus nessas palavras: “Por isso lhe darei a sua parte com os grandes, e com os fortes ele partilhará os despojos; porque derramou a sua alma até a morte, e foi contado com os transgressores. Contudo levou sobre si os pecados de muitos, e intercedeu pelos transgressores” (cf. Is.53:12). Comentando essa passagem, o Dr. Samuelle Bacchiocchi afirma:

“’Ele derramou’ é versão do hebraico arah que significa ‘esvazia, desnudar, ou deixar a descoberto’. Isso significa que o Servo Sofredor esvaziou-Se de toda a vitalidade e força da alma. Na morte, a alma não mais funciona como o princípio animador da vida, mas descansa na sepultura”

De qualquer forma, eles não insistiriam tanto na morte da alma, com os tradutores bíblicos na grande maioria dos casos traduzindo por “pessoa” ao invés de “alma-nephesh”, como deve ser traduzido, presumivelmente por causa de crerem que a alma é imortal e não pode ser morta, contrariando a Bíblia toda (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3, 9; Gn.37:21; Dt.19:6, 11; Jr.40:14, 15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4; Ez.18:21). Em Números 31:19, lemos que a morte do corpo é a morte da alma: “Acampai-vos sete dias fora do arraial; qualquer de vós que tiver matado alguma pessoa [nephesh] e qualquer que tiver tocado em algum morto, ao terceiro dia e ao sétimo dia, vos purificareis, tanto vós como os vossos cativos” (cf. Nm.31:19).

O original novamente traz a morte da alma: “Ve’attem chanu michutslammachaneh shibh`ath yâmiym kol horêgh nephesh vekhol noghêa`bechâlâltithchathe’u bayyom hasheliyshiy ubhayyom hashebhiy`iy ‘attem ushebhiykhem”.

Qualquer erudito familiarizado com as Escrituras também irá se deparar repetidamente com a forte convicção bíblica de que, caso as pessoas morressem, as suas almas não escapariam da morte. Isso explica o porquê que, em tantos casos, vemos os salmistas agradecendo a Deus por ter livrado a alma deles da morte, prolongando os dias de vida deles, ou, então, dizendo que a sua alma morreria a morte dos justos:

“Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés da queda” (cf. Sl.116:8).

“Para lhes livrar as almas da morte, e para os conservar vivos na fome” (cf. Sl.39:19)

“Pois tu livraste a minha alma da morte; não livrarás os meus pés da queda, para andar diante de Deus na luz dos viventes?” (cf.Sl.56:13)

“Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu” (cf. Nm.23:10)

“E a sua alma se vai chegando à cova, e a sua vida aos que trazem a morte” (cf. Jó 33:22)

“Portanto guardareis o sábado, porque santo é para vós; aquele que o profanar certamente morrerá; porque qualquer que nele fizer alguma obra, aquela alma será eliminada do meio do seu povo” (cf. Êx.31:14)

“Preparou caminho à sua ira; não poupou as suas almas da morte, mas entregou à pestilência as suas vidas” (cf. Sl.78:50)

“E sucedeu que, importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e molestando-o, a sua alma se angustiou até a morte”(cf. Jz.16:16)

“Conspiração dos seus profetas há no meio dela, como um leão que ruge, que arrebata a presa; eles devoram as almas; tomam tesouros e coisas preciosas, multiplicam as suas viúvas no meio dela” (cf. Ez.22:25)

“E naquele mesmo dia tomou Josué a Maquedá, feriu-a a fio de espada, e destruiu o seu rei, a eles, e a toda a alma que nela havia; nada deixou de resto: e fez ao rei de Maquedá como fizera ao rei de Jericó” (cf. Js.10:28)

“Os seus príncipes no meio dela são como lobos que arrebatam a presa, para derramarem sangue, para destruírem as almas, para seguirem a avareza” (cf. Ez.22:27)

Estes são alguns exemplos de passagens nas quais não precisamos ir até o original hebraico para revelarmos que o original traz  a palavra “alma”, pois as próprias versões em português (ou a maioria delas) já traduzem por “alma” nestes versos, traduzindo nephesh por alma como realmente deve ser, em um contexto onde ela é morta, ou destruída, ou eliminada, ou devorada! Vale lembrar sempre que existe uma outra grande maioria de passagens bíblicas relatando a morte e extermínio da alma, em que nephesh não foi traduzido por “alma” como corretamente deveria ser, mas o que restou a nós já é mais do que o suficiente para imputarmos a doutrina de que a alma não morre como algo completamente antibíblico.

Os escritores bíblicos jamais disseram que a alma é um elemento imaterial e imortal, mas sim algo bem material e que morre.

Por tudo isso, não existe alma imortal; o fato de a alma morrer tanto provém de que uma “alma vivente” não significa uma “alma imortal”, mas simplesmente um “ser vivo”, sujeito a morte: “Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4).

O Dr. Bacchiocchi ainda acrescenta:

“As pessoas tinham grande temor por suas almas [nephesh] (Jos. 9:24) quando outros estavam buscando suas almas [nephesh] (Êxo. 4:19; 1 Sam. 23:15). Eles tiveram que fugir por suas almas [nephesh] (2 Reis 7:7) ou defender suas almas [nephesh] (Est.8:11); se não o fizessem, suas almas [nephesh] seriam totalmente destruídas (Jos. 10:28, 30, 32, 35, 37, 39). “A alma que pecar, essa morrerá” (Eze. 18:4, 20). Raabe pediu aos dois espias israelitas que salvassem sua família falando em termos de “livrareis as nossas vidas [almas-VKJ] da morte” (Jos. 2:13)”

Sumariando, vemos que, biblicamente, a alma morre (cf. Ez.18:4), perece (cf. Mt.10:28), é destruída (cf. Ez.22:27), não é poupada da morte (cf. Sl.78:50), é completamente eliminada (cf. Êx.31:14), desce à cova na morte (cf. Jó 33:22), revive na ressurreição [porque estava morta antes disso] (cf. Ap.20:4), é totalmente destruída (cf. Js.10:28), é derramada na morte (Is.53:12), é penetrada pelo fio da espada (cf. Jr.4:10), é passível de sofrer decompisição [na sepultura] (cf. Sl.49:8,9), “repousa” na morte (cf. Sl.25:13), é sufocada (cf. Jó 31:39,40), é devorada (cf. Ez.22:25), pode ser assassinada (cf. Nm.35:11) e exterminada (cf. At.3:23).

Que a alma não é e nem nunca foi imortal, isso também fica evidente pelo fato de que, em mais de 1600 citações em que aparece “alma” na Bíblia, em nenhuma delas é seguida do termo “eterno” [aionios] ou “imortal” [athanatos], o que obviamente seria feito caso a alma fosse eterna ou imortal. Porém, isso nunca ocorre nas Escrituras, que preferem insistir constantemente em dizer que a alma morre, é destruída, exterminada e aniquilada (cf. Nm.31:19; 35:15,30; 23:10; Js.20:3,9; Js.20:3,28; Gn.37:21; Dt.19:6, 11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; 16:30; Ez.18:4,21; 22:25,27; Jó 11:20; At.3:23; Tg.5:20, etc).

A Bíblia usa e abusa de todos os termos genéricos para a morte da alma. Junte isso ao fato que vimos acima, de que nunca algum escritor bíblico fez qualquer questão de dizer que a alma seria ‘eterna’ ou ‘imortal’ (em mais de 1600 citações), porque eles sabiam bem que a alma morre com a morte do corpo. Ou seja: temos centenas de centenas de citações mostrando explicitamente e expressamente a morte da alma, mas nenhuma que de forma direta afirme que a alma é “imortal” (athanatos) ou “eterna” (aionios)! Isso vai frontalmente contra o dualismo grego que divulgava a imortalidade da alma amplamente e nunca ousava dizer que a morria podia ser morta, o que seria uma completa afronta para os gregos dualistas, um verdadeiro escândalo para eles.

Se a alma de fato fosse imortal, o que deveríamos esperar seria uma “enchente” de citações bíblicas falando sobre a “alma eterna”, a “alma imortal”, a “imortalidade da alma”, etc. O próprio fato de a Bíblia insistir tanto na morte da alma ao invés de promover a imortalidade desta é suficientemente incontestável a fim de desqualificarmos inteiramente esta doutrina por não possuir um mínimo de respaldo teológico sério. Crer que a alma é imortal é estar com os olhos “vendados” (cf. 2Co.4:4) a luz de todas as evidências.

No Novo Testamento – O Novo Testamento confirma, mantém e amplia a crença bíblica de que a alma morre. Jesus nos contou sobre aquele que pode destruir o corpo e a alma (cf. Mt.10:28), Tiago nos diz que a alma está sujeita à morte (cf. Tg.5:20) e Pedro declara que ela pode ser exterminada:
“E acontecerá que toda a alma que não escutar esse profeta será exterminada dentre o povo” (cf. Atos 3:23).

Neste texto a palavra usada para o extermínio da alma é exolothreuo, que, de acordo com o léxico de Strong, significa “derrubar do seu lugar, destruir completamente, extirpar”. Não tem qualquer relação com um prosseguimento eterno e ininterrupto de vida consciente, mas diz respeito a um extermínio, uma completa cessação de existência. A palavra grega exolothreuo denota o completo extermínio da alma. Embora os escritores bíblicos tivessem a completa decisão de escolha entre respaldar a morte do “corpo” ou da “pessoa”, duas palavras disponíveis tanto no grego como no hebraico, eles insistem na morte e extermínio da alma [nephesh/hebraico – psuchê/grego].

Paulo também afirma, no auge da tempestade de Atos 27, que “nenhuma vida se perderá” (cf. At.27:22). O “perder-se” aqui referido é claramente relacionado com a cessação de vida, a morte na qual passaria aquelas pessoas em caso que o navio se afundasse. Poucas pessoas sabem, contudo, que o original grego traz “alma-psiquê” novamente: “kai abs=ta abs=nun t=tanun parainô umas euthumein apobolê gar psuchês oudemia estai ex umôn plên tou ploiou”. Em outras palavras, eles teriam as suas próprias almas mortas.

O apóstolo Paulo usou a palavra para alma-psiquê apenas treze vezes em seus escritos (de 1600 em que aparece na Bíblia). A razão mais razoável para isso é que ele não queria dar entender aos seus leitores um sentido equívoco daquilo que seria a “alma”, em direto contraste com o pensamento platônico que a divulgava amplamente. Por isso mesmo, ele jamais se utilizou do termo “alma-psichê” para denotar a vida que sobrevive à morte. Pelo contrário, relata que “é semeado um corpo natural [psychikon] e ressuscita um corpo espiritual. Se há corpo natural [psychikon], há também corpo espiritual” (cf. 1Co.15:44).

Aqui ele se utiliza de um derivado de alma-psyche a fim de denotar a natureza do corpo natural que está sujeito à morte [e consequente ressurreição], e não a algum elemento imaterial ou imortal. “Corpo natural” aqui é a tradução do grego que diz: “soma psuchikos”, que literalmente significa: “corpo psíquico” (psiquê significa alma). Alma-psiquê, portanto, está relacionada a um corpo natural que morre e que ressuscita, e não a um elemento imaterial, intangível e imortal desassociado do corpo natural e mortal.

Os manuscritos originais da Bíblia (AT/hebraico; NT/grego) sempre insistem que a alma não é uma parte divisível do corpo ou algum potencial imaterial presente na natureza humana trazendo consigo imortalidade, mas sim a própria pessoa como um ser vivo, como uma alma vivente. Paulo e Barnabé eram “homens que têm arriscado a vida [psiquê] pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (cf. At.15:26), porque a alma-psiquê também morre. Por isso, ela também é colocada em risco de acordo com os perigos em determinada localidade. Eles colocaram a própria alma em risco por amor a Cristo, porque a alma também pode ser morta. Se assim não fosse, eles estariam arriscando apenas o corpo mortal, e não a alma, pois esta supostamente seria imortal e inatingível a qualquer perigo de vida.

Em Mateus 2:20, é nos dito que já morreram os que buscavam a alma-psiquê do menino Jesus:
“Levanta-te, toma a criancinha e sua mãe, e vai para a terra de Israel, porque já morreram os que buscavam a alma da criancinha” (cf. Mateus 2:20)

No grego:
“legôn egertheis paralabe to paidion kai tên mêtera autou kai poreuou eis gên israêl tethnêkasin gar oi zêtountes tên psuchên tou paidiou”

O termo “buscar a alma”, diante do contexto, tem clara ligação com buscar a morte daquela criança, que era o objetivo de Herodes: matar o menino Jesus. Ocorre que o evangelista Mateus, ao invés de dizer que eles matariam apenas o corpo, emprega novamente o termo “alma-psiquê”, pois a morte seria total: corpo e alma. Jesus disse em Mateus 16:25 que “todo aquele que quiser salvar a sua alma [psiquê], perdê-la-á; mas todo aquele que perder a sua alma [psiquê] por minha causa, achá-la-á”.

O termo “perder a alma” aqui diz respeito ao martírio que todos os discípulos de Cristo passaram. Eles “perderam a alma”, isto é, tiveram um fim nesta vida pelas mãos de homens cruéis, visando “ganhá-la” num momento futuro, na ressurreição dos mortos.

Mais uma vez, a morte não está relacionada ao corpo de modo estrito, mas também à psiquê: alma! Outra clara referência neotestamentária sobre a morte da alma está em Marcos 3:4, quando Cristo diz: “A seguir, disse-lhes: ‘É lícito, no sábado, fazer uma boa ação ou fazer uma má ação, salvar ou matar uma alma?” (cf. Marcos 3:4)

No grego:
“kai legei autois exestin tois sabbasin a=agathon a=poiêsai tsb=agathopoiêsai ê kakopoiêsai psuchên sôsai ê apokteinai oi de esiôpôn”

De acordo com a Concordância de Strong, a palavra grega apokteino significa:
615 αποκτεινω apokteino
de 575 e kteino (matar);
1) matar o que seja de toda e qualquer maneira.
1a) destruir, deixar perecer.

Portanto, apokteino psiquê denota a morte completa da alma, e não uma “imortalidade natural” dela. Pedro, ao dizer que morreria por Cristo, chegou a dizer: “Senhor, por que é que não te posso seguir atualmente? Entregarei a minha alma em benefício de ti!” (cf. João 13:37)

No grego:
“legei autô ats=o petros kurie ab=dia ab=ti ts=diati ou dunamai soi akolouthêsai arti tên psuchên mou uper sou thêsô”

Pedro estava simplesmente dizendo que estava disposto a morrer por Cristo, e para isso diz que entregaria a sua psiquê por amor do Mestre, isto é, estaria disposto a entregar a sua própria alma à morte em benefício de Cristo. Ele não cria que no máximo entregaria um corpo para morrer, mas a alma. Ele não via a alma como um elemento imaterial e imortal, mas como algo tão fadado à morte quanto o próprio corpo. E o mesmo pode ser dito com relação ao Filho do homem, que daria a sua alma-psiquê como resgate em troca de muitos: “Assim como o Filho do homem não veio para que se lhe ministrasse, mas para ministrar e dar a sua alma como resgate em troca de muitos” (cf. Mateus 20:28)

No grego:
“ôsper o uios tou anthrôpou ouk êlthen diakonêthênai alla diakonêsai kai dounai tên psuchên autou lutron anti pollôn”

“Eu sou o pastor excelente; o pastor excelente entrega a sua alma em benefício das ovelhas” (cf. João 10:11)

No grego:
“egô eimi o poimên o kalos o poimên o kalos tên psuchên autou tithêsin uper tôn probatôn”

“Ninguém tem maior amor do que este, que alguém entregue a sua alma a favor de seus amigos” (cf. João 15:13)

No grego:
“meizona tautês agapên oudeis echei ina tis tên psuchên autou thê uper tôn philôn autou”

“Dar a sua alma” nada mais é do que entregar a sua própria vida à morte, em favor da humanidade. Psiquê mais uma vez não é vista como algo imortal, mas algo sujeito à morte, como o corpo. Finalmente, em Apocalipse 20:4 é nos dito que as almas dos que foram degolados por causa do testemunho de Jesus reviveram. Se elas “reviveram”, é porque estavam mortas antes disso:
“E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” (cf. Apocalipse 20:4)

Neste contexto em que as almas revivem, não aparece corpo-soma na passagem, mas apenas a referência às almas-psiquê que João viu em sua visão ganharem vida novamente no ato da ressurreição. Dizer que aquilo que reviveu foi somente o corpo é entrar em gritante contradição com o texto bíblico, que em momento nenhum fala de corpos. O texto não diz: “as almas daqueles corpos que foram degolados”, mas sim “as almas daqueles que foram degolados”. Foram “as almas daqueles que foram degolados” que reviveram, e não “os corpos daqueles que foram degolados”.
Dizer que o “daqueles” está associado ao corpo (que nem sequer aparece no texto) e não ao referencial direto (“almas”) é no mínimo querer ferir a exegese e amputar as regras de interpretação textual. “Daqueles” é uma referência clara ao referencial mais direto, ou seja, “as almas”. Um exemplo prático para elucidar a questão: se eu dissesse que “a gasolina daqueles carros que pararam de funcionar foi recolocada”, o que é que foi recolocado? A gasolina ou os carros? Óbvio: a gasolina. É a gasolina daqueles carros, e não os próprios carros. Em Apocalipse 20:4 é exatamente a mesma estrutura textual que aparece. Vemos que as almas daqueles mártires reviveram. O que reviveu? A resposta também é óbvia: as almas daqueles que foram degolados!
Além disso, o original grego traz o artigo definido, que no grego é “των” (ho), e que é traduzido na maioria das versões por “daqueles”:

“kai eidon thronous kai ekathisan ep autous kai krima edothê autois kai tas psuchas tôn pepelekismenôn dia tên marturian iêsou kai dia ton logon tou theou kai oitines ou prosekunêsan a=to tsb=tô a=thêrion tsb=thêriô a=oude tsb=oute tên eikona autou kai ouk”

De acordo com o léxico da Concordância de Strong, significa:
3588 ο ho que inclui o feminino η he, e o neutro το to em todos as suas inflexões, o artigo definido; artigo
1) este, aquela, estes, etc.

Exceto “o” ou “a”, apenas casos especiais são levados em consideração.

Este artigo inclui o feminino e também o neutro, o que mostra que está apenas reiterando que o sujeito é mesmo as almas, e não algum outro. “Corpo-soma” é masculino, e não feminino; ademais, nunca que o artigo definido ho toma o lugar de sujeito da frase, ele apenas é um artigo definido que confirma o sujeito da frase, não é utilizado para fazer uma distinção das “almas”, mas é um prosseguimento do relato delas, ainda com elas (as almas) sendo o sujeito único da frase. Portanto, em momento nenhum a referência e o sujeito da frase deixa de ser “as almas”, o que nos mostra que:

• Almas são decapitadas (morrem)
• Almas revivem na ressurreição

Por tudo isso, vemos que o Catecismo Católico que afirma que “a alma não perece com a morte do corpo”76 mostra uma total carência de conhecimento e discernimento bíblico. Isso explica o porquê do “problema da Bíblia” como já foi aqui exposto; e, de fato, até hoje a grande maioria das traduções continuam omitindo dos seus leitores a morte da alma com a morte do corpo. Mas, fazer o que: essa é a única maneira de “salvar” a doutrina de que a alma não morre e está viva em algum lugar, escondendo e omitindo dos seus leitores a verdade bíblica da morte da alma, o que exterminaria com um império de cegueira espiritual que tenta monopolizar a opinião escondendo a verdade dos olhos do povo, perpetuando estes enganos através das tradições humanas.

Quem tem ouvidos para ouvir, OUÇA!

Continua…

Artigos relacionados no link abaixo:
A alma NÃO É imortal!

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Referências:

ATKINSON, Basil F. C. Life and Immortality. Londres, pp. 1-2;.
WOLFF, Hans Walter. Anthropology of the Old Testament. Filadélfia, 1974, p. 1.
BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno.
Unaspress, 1ª edição, 2007.
MORK, Dom Wulstan. The Biblical Meaning of Man. Milwaukee, Wisconsin, 1967, p. 34.
New Catholic Encyclopedia, 1967, Vol. XIII, p. 467.
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Paralelismo_sint%C3%A1tico>.
Léxico da Concordância de Strong, 1842.
§366 do Catecismo Católico.
CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?
Fonte: BANZOLI, Bruno. “A Lenda da Imortalidade da Alma”.

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