Dom de Línguas

Dom de Línguas: Um idioma ou um balbuciar pronunciado em êxtase?

O dom de línguas é em disparado um dos assuntos mais polêmicos e disputados na Igreja de hoje, ao ponto de conseguir dividir evangélicos tradicionais de evangélicos pentecostais, e católicos tradicionais de católicos carismáticos.

Neste artigo, trataremos o assunto de uma forma mais ampla e geral, como fiz em outros artigos deste blog.

De um lado, os cessacionistas afirmam que as línguas em questão eram idiomas terrenos, os quais eram usados pelos apóstolos para levar o evangelho a regiões distantes que falavam em outras línguas. Era basicamente, portanto, uma ferramenta de evangelização, para edificar o próximo. Já os pentecostais entendem que o dom de línguas consistia em línguas espirituais, as quais não podem ser compreendidas por ninguém a não ser que se tenha o dom da interpretação, e este dom servia apenas para a própria pessoa (edificação pessoal), e não para evangelizar alguém ou edificar terceiros.

Os cessacionistas em geral afirmam que o dom de línguas serviu apenas para aquela era apostólica e que teve como única finalidade a pregação em língua estrangeira para um estrangeiro. Por exemplo: eu falo português, mas quero evangelizar a Tailândia, então viajo à Tailândia, mas para pregar aos tailandeses teria que saber falar em tailandês. Então, para poupar tempo de estudo até conseguir aprender a língua, Deus dá o dom de falar em tailandês e eu posso pregar aos tailandeses. A língua é, então, uma língua terrena, e não uma língua “celestial” (por “celestial” entende-se uma língua não criada pelos homens).

Todos os cristãos que acreditam na Bíblia e que estudam a Palavra de Deus estão de acordo em que o dom de línguas está presente nas Escrituras. O que fica claro na Palavra é que NÃO é uma habilidade natural que se possa desenvolver, mas sim um presente especial da parte de Deus para os santos.

O Espírito Santo é soberano na distribuição desses dons. Seguindo a lista dos dons, Paulo acrescenta: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.” (1 Coríntios 12:11). Devemos ter o cuidado de não confundir o Espírito como um dom para o crente, com os dons que o Espírito dá aos crentes.

O significado de Falar em Línguas

O termo que é usado para identificar o movimento das línguas é Glossolalia (do grego γλώσσα, “glóssa” [língua]; λαλώ, “laló” [falar]). É um fenômeno de psiquiatria e de estudos da linguagem. Glossologia é o departamento de antropologia que tem a ver com o estudo e classificação de línguas e dialetos.

Embora o assunto sendo tão confuso para a maioria da igreja, muitas denominações pentecostais ensinam três distinções ou tipos de falar em línguas:

  • Falando em línguas como um derramamento sobrenatural e sinal para incrédulos (Atos 2:11).
  • Falando em línguas para o fortalecimento da igreja. Isso requer uma interpretação das línguas (1 Coríntios 14:27).
  • Falando em línguas como uma linguagem de oração privada (Romanos 8:26).

Mas a linha que este estudo segue é a que o Dom de línguas foi um derramamento sobrenatural e sinal para incrédulos (Atos 2.11; 1Co 14 21,22), pois encontra respaldo claro na Palavra. A indicação de textos para as duas outras opções está claramente fora de contexto.

A palavra “glóssa” [língua] aparece no Novo Testamento grego no mínimo cinquenta vezes. É usado para se referir ao órgão físico da língua como em Tiago 3:5; Aparece uma vez em referência às chamas de fogo em forma de línguas (Atos 2: 3); E pelo menos uma vez em um sentido metafórico ao se referir ao discurso como na afirmação, “minha língua (fala) estava feliz (alegre)” (Atos 2:26). Tanto quanto eu entendo, os usos restantes da palavra sempre significam uma linguagem.

Segundo a Bíblia, o dom de línguas é a capacidade de falar outra língua conhecida, em outro idioma com o objetivo de anunciar a boa notícia e salvação por meio de Cristo. Mateus 28:19, 20 diz que devemos “ensinar as pessoas a guardarem todas as coisas…” Observe que, para ensinar, é indispensável conhecer a língua falada do estrangeiro. “A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso.”(1 Coríntios 12:7). Concluímos, obviamente, que o falar em língua deve ter uma utilidade; deve ser, ao menos, inteligível. Lembrando: que tenha um propósito evangelístico.

Esta experiência autêntica aconteceu com os discípulos por ocasião do Pentecostes (A palavra pentecostes é grega e quer dizer “qüinquagésimo (dia)”, pois essa festa era comemorada cinqüenta dias depois da PÁSCOA (Dicionário da Bíblia de Almeida – Sociedade Bíblica do Brasil).):

Quando nosso Senhor previu o dom das línguas (a única menção das línguas nos quatro registros evangélicos) Ele disse: “E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; “(Marcos 16:17). O adjetivo “novas” (Gr. Kainos) só pode significar que eles iriam falar em idiomas novos para eles, ou seja, idiomas que eles não tinham aprendido ou usado até aquele momento. Se eu disser que a língua russa é “nova” para mim, não quero dizer que eu nunca soube que existisse tal linguagem, mas sim o uso por mim que é novo porque não posso falar nem entender quando ouço outros falando. Por outro lado, a língua passa a não ser nova se você puder ler e falar, entendendo-a.

Em Atos 2:4, Lucas usa um adjetivo diferente quando diz: “e começaram a falar noutras línguas”. A palavra “outras” (Gr. Heteros) simplesmente significa que eles falavam em idiomas diferentes da linguagem normal que costumavam usar. O contexto justifica isso. Observe a reação de surpresa por parte dos ouvintes: “E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando? Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? (Atos 2:7,8). Todos os ouviram falar em sua própria língua (Atos 2:6). Aqui a palavra “linguagem” é a tradução de dialekto da qual vem a nossa palavra “dialeto”. As duas palavras glossa (língua) e dialektos (linguagem) são usadas de forma sinônima, tornando óbvio que os discípulos falavam em línguas conhecidas além da língua nativa deles. Nos versículos 9-11, as línguas são identificadas. Foi um fenômeno milagroso que permitiu aos discípulos falar em línguas (idiomas) que nunca tinham aprendido. Aqui, nesta passagem de Atos, temos línguas – falando em sua forma pura e não pervertida, como Deus a deu.

Os seguintes versículos no Livro de Apocalipse devem ser cuidadosamente examinados (Apocalipse 5: 9; 7: 9; 10:11; 11: 9; 13: 7; 14: 6; 17:15). Em cada passagem onde a palavra “língua” é mencionada, significa uma das línguas associadas às várias nacionalidades e raças. Não vejo nenhum motivo para que alguém possa fazer uma pergunta sobre as línguas nas passagens de Marcos, Atos e Apocalipse que significam línguas.

“Está escrito na Lei: Por gente doutras línguas, e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim me não ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis” (1 Co 14.21,22).

“E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem… E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois que! não são galileus todos esses homens que estão falando?… os temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus” (Atos 2.4-11).

Quando nos referimos a este assunto, é de suma importância que entendamos duas coisas:

1. Qual era o propósito do dom de línguas?
2. Eram essas línguas normalmente faladas no mundo, ou eram meramente um balbuciar pronunciado em êxtase?

Os versículos citados no início respondem com muita clareza a estas perguntas: Primeiro, foram dadas como um sinal para incrédulos e não para os crentes. Segundo, eram línguas entendidas por pessoas originárias de países onde se falava aqueles idiomas.

Se tivermos estas duas coisas em mente, todas as passagens que tratam do assunto se tornarão claras de uma só vez. Quanto ao fato de elas existirem ou não nos dias de hoje, se existirem, devemos esperar que sejam as mesmas mencionadas pelas Escrituras. Deus deu sinais para confirmar a Palavra para os incrédulos, isto é, antes que o Novo Testamento tivesse sido escrito (Mc 16.20; Hb 2.3,4). Porém hoje encontramos duas coisas que chamam nossa atenção no moderno movimento de línguas:

Primeiro, elas não são utilizadas para proclamar as grandezas de Deus aos incrédulos em suas próprias línguas.

Segundo, elas encontram-se, frequentemente, associadas com algum erro sério acerca da Pessoa e obra de Cristo, e também estão conectadas a outras práticas que não são bíblicas.

Estas coisas devem nos colocar em estado de alerta antes que nos envolvamos com tais movimentos, pois nos é dito: “Examinai tudo. Retende o que é bom.” (1 Ts 5.21). A maneira de as examinarmos é pela Palavra de Deus. É algo muito sério buscarmos algum tipo de poder que não esteja em conformidade com a Palavra de Deus.

Por que Deus deu o Dom de línguas a igreja?

Primeiro, para comunicar a mensagem evangélica. Com uma clareza inconfundível, Paulo diz: “De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis;”(1 Coríntios 14:22). A palavra “sinal” (Gr. Semeion) no Novo Testamento é frequentemente associada à transmissão de uma mensagem divinamente dada aos incrédulos. Esta é a ênfase em João 20:30, 31 onde lemos:

“E muitos outros sinais realmente fizeram Jesus na presença de Seus discípulos, que não estão escritos neste livro: Mas estes estão escritos, para que creiais que Jesus é O Cristo, o Filho de Deus; E que, acreditando, tenham vida através de Seu nome.” Os sinais (milagres) nunca foram realizados sem propósito, mas por causa da mensagem que eles comunicaram.

A verdadeira função do dom de línguas é “para um sinal”. . . Para os que não acreditam. Utilizar este dom quando os incrédulos não estão presentes, se utilizaria o presente acima do propósito para o qual foi dado. Os dons nunca foram dados para a auto-satisfação ou auto-glória dos destinatários. Aquele sobre quem o dom foi concedido era meramente um instrumento através do qual Deus queria comunicar Sua mensagem.

Por causa do abuso e uso indevido de línguas na igreja de Corinto, Paulo afirma seu propósito. A imaturidade espiritual dos santos em Corinto pediu instrução, então, no meio de seu discurso em línguas, ele escreve: “Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento.” (1 Coríntios 14.20) A palavra grega para “homens” (teleios) significa amadurecer. No que se refere a falar em línguas, eles estavam mostrando imaturidade, um padrão de comportamento que caracterizava os crentes em Corinto. O apóstolo lembrou-lhes que permaneceram “bebês em Cristo” (3:1).

O fracasso em crescer espiritualmente resultou do estudo negligenciado das Escrituras. A Epístola aos Hebreus enfatiza esse ponto: “Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento. Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal. “(Hebreus 5: 12-14). Pedro escreveu: “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo;” (I Pedro 2:2). Encontraremos sempre confusão onde o estudo da Palavra de Deus é negligenciado.

Agora voltemos a 1 Coríntios 14:20. Imediatamente depois de repreendê-los com as palavras: “Irmãos, não sejam filhos sem compreensão”, acrescenta Paulo, “na lei está escrito. . . “(v. 21), apontando assim a fraqueza deles, ou seja, seu fracasso em familiarizar-se com o que estava escrito nas Escrituras do Antigo Testamento. Eles não haviam estudado a Palavra de Deus, portanto, eles se tornaram vítimas de um fraco desenvolvimento bíblico .

Falar em línguas era um dom concedido pelo Espírito Santo, mas isso, ou qualquer outro dom, pode ser mal utilizado. Falar em línguas não era marca de espiritualidade, porque a igreja coríntia não era espiritual, pois manifestou carnalidade (I Co 3:1-3) e até mesmo pecado grosseiro (I Co 5:1). E, assim, Paulo os aponta para uma Escritura que eles deveriam saber, dizendo: “Está escrito na lei: Por gente de outras línguas, e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim me não ouvirão, diz o Senhor.”(I Co 14.21).

Paulo está aqui se referindo a uma profecia que Deus havia dado através de Isaías. A nação de Israel não obedeceu à mensagem de Deus que Ele deu por meio de seus próprios profetas, então o Senhor lhes disse que, no futuro, outros falariam a mensagem em suas próprias línguas, ou seja, através de línguas diferentes das de Israel. “Assim por lábios gaguejantes, e por outra língua, falará a este povo.” (Isaías 28:11). Assim, Paulo vê nesta profecia de Isaías o dom de línguas como um sinal para Israel. As palavras “este povo” em Isaías 28:11, em seu contexto, pode se referir apenas a Israel. O abuso de línguas – falar em Corinto não surgiu da crença em falar em línguas, mas sim na negligência das Escrituras que ensinam o seu uso adequado.

Em segundo lugar, para confirmar a mensagem evangélica. Não era apenas um sinal de comunicação, mas um sinal de confirmação também. Quando os Apóstolos usaram o dom de línguas, era porque eles não tinham o que você e eu temos hoje, a Palavra de Deus completa, a revelação completa de Deus para o homem. Quando eles pregavam o Evangelho, sua mensagem foi confirmada pelos “dons de sinal”. O falar em línguas reivindicava a mensagem e o mensageiro. “Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós com toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas.” (2 Coríntios 12:12). Se alguém pudesse encontrar um apóstolo que vive hoje que viu o Senhor Jesus ressuscitado pelo corpo, ele não exerceria os sinais porque ele teria o que você e eu temos, e o que Pedro, Paulo e João não tinham: a Palavra escrita completa de Deus. Agora que temos as Escrituras, não precisamos de milagres para confirmar a mensagem de Deus. Hoje, a manifestação de poder de Deus continua no planeta através dos santos, mas para que Deus seja glorificado por isso. Mas, no princípio da igreja, os sinais eram uma confirmação para os que não acreditavam.

Os sinais eram para os judeus, e não para os gentios. “Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria;”(1 Coríntios 1:22). Repetidamente foram os judeus que pediram um sinal. “Então alguns dos escribas e dos fariseus tomaram a palavra, dizendo: Mestre, quiséramos ver da tua parte algum sinal.” (Mateus 12:38). Mais uma vez, “E, chegando-se os fariseus e os saduceus, para o tentarem, pediram-lhe que lhes mostrasse algum sinal do céu.” (Mateus 16:1). “Responderam, pois, os judeus, e disseram-lhe: Que sinal nos mostras para fazeres isto?” (João 2:18). “Disseram-lhe, pois, a ele: Que sinal, então, que possamos ver e acreditar em Ti? O que você trabalha? “(João 6:30).

Durante a Tribulação, o Anticristo aparecerá, “A esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira,” (II Tessalonicenses 2:9), e naquela época muitos judeus serão enganados ao receber o Anticristo como seu Messias. Todos aqueles que pediram um sinal eram judeus, e sua insistência em sinais será finalmente uma triste destruição para maioria deles no fim.

Precisamos fugir da necessidade de sinais da parte de Deus. Nós, os que somos do Senhor, temos as Sagradas Escrituras, então, “caminhemos pela fé, não pela vista” (2 Coríntios 5:7). Sempre que o dom de línguas era exercido, os judeus estavam presentes, falando para comunicar o Evangelho ou para confirmar aos judeus que os gentios eram dignos de salvação e, portanto, deveriam ter o Evangelho também. Tais confirmações são observadas em Atos 10:45 e 19:6. “E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém.”(Marcos 16:20).

Se alguém negar a mensagem da Palavra escrita de Deus hoje, não existe outro tribunal de recurso. Nos dias dos Apóstolos, o Novo Testamento ainda não escrito, o Espírito Santo sustentava sua mensagem, acompanhando-o com sinais. Mas depois que aqueles homens sagrados e inspirados completaram a redação do Novo Testamento, tais confirmações não eram mais necessárias. O sinal no Pentecostes inaugurou uma nova era antes do Novo Testamento ter sido escrito. Mas se os homens rejeitam a Palavra inspirada de Deus agora, eles não precisam procurar sinais sobrenaturais.

Uma passagem significativa do Novo Testamento que reforça o fato de que os dons de sinais foram dados para confirmar a mensagem do Evangelho está em Hebreus 2:3,4:

“Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição, como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram; Testificando também Deus com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas e dons do Espírito Santo, distribuídos por sua vontade?” (Hebreus 2:2-4)

Se a Epístola aos Hebreus foi escrita entre 65 e 70 dC, é óbvio afirmar que as pessoas a quem a mensagem foi “confirmada” com sinais e dons foram aquela geração imediatamente após a morte do nosso Senhor.

As referências sobre o Dom de Línguas em Atos

ATOS 2.1-14

Consideremos as três passagens em Atos que falam das línguas. Em Atos 2, no dia de Pentecostes, o Espírito Santo desceu de acordo com a promessa de Atos 1.4,5 (veja também João 7.39; 16.7). No dia de Pentecostes algo novo estava para começar. O Senhor Jesus havia dito, “Edificarei a minha Igreja” (Mt 16.18), e essa Igreja seria composta de judeus e gentios (1 Co 12.13). A parede de separação entre judeus e gentios estava para ser derrubada (Ef 2.14), e qual sinal poderia ser mais apropriado, para ser dado em conexão com esse algo novo, do que o dom de línguas? A linguagem é uma barreira e tanto e o dom de línguas a quebrou. A mensagem das grandezas de Deus foi então proclamada em muitas línguas diferentes, e isso sem qualquer aprendizado prévio por parte dos que as falavam. Deus mostrava estar indo além das fronteiras de Israel, pois Ele estava pronto para derrubar a parede de separação que dividia os judeus dos gentios.

Em Atos 2, o discurso foi usado como uma ferramenta missionária ou evangelística em cumprimento de Isaías 28:11. Não havia necessidade de os discípulos aprenderem outras línguas antes de poderem comunicar o Evangelho. Deus superou a barreira do idioma através do milagre – dom das línguas. No dia de Pentecostes, havia “judeus de todas as nações sob o céu” (Atos 2:5). E quando os discípulos “começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.” (Atos 2:4), os ouvintes responderam com a pergunta: “E como ouvimos todos nós em nossa língua, onde nascemos? “(Atos 2:8). Observe que eles eram “judeus” de outros países que falavam muitas línguas e dialetos, e ainda assim ouviram o Evangelho em sua própria língua. A profecia de Isaías estava sendo cumprida.

ATOS 10.44-46

Encontramos a próxima referência ao dom de línguas em Atos 10.44-46. Vemos ali um grupo de gentios na casa de Cornélio, pois mais uma vez Deus está apresentando aquilo que é novo pela introdução dos gentios na formação da igreja de Deus sobre a terra. Eles receberam o Evangelho proclamado por Pedro e, quando o Espírito Santo veio sobre eles, falaram em línguas e foram acrescentados à igreja. Em Atos 11.4-18, ao recordar o que acontecera, Pedro disse, “caiu sobre eles o Espírito Santo, como também sobre nós ao princípio”. Isso deixa bem claro que eles também falaram línguas inteligíveis (idiomas falados neste mundo), pois foi assim que o dom de línguas havia sido dado “ao princípio”. Mais uma vez vemos que isso estava em harmonia com os desígnios de Deus, em demonstrar que Ele estava alcançando, muito além de Israel, os próprios gentios. Aqueles que se encontravam na igreja em Jerusalém foram levados a admitir isso, pois disseram, “Na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida” (At 11.18).

Em Atos 10:46 a ocasião novamente foi comunicar o Evangelho, desta vez com o propósito de efetuar a conversão de Cornélio e sua casa. Este evento não pode ser totalmente desassociado de Pentecostes porque Pedro, ao relacionar esta experiência, disse: “E quando comecei a falar, o Espírito Santo caiu sobre eles, como em nós no início” (Atos 11:15). Na casa de Cornélio, o discurso era um sinal para os judeus no momento em que o Evangelho estava sendo comunicado (Atos 10: 44-46).

ATOS 19.6

A terceira vez em que lemos acerca do dom de línguas é em Atos 19.6, quando Paulo vai a Éfeso. Ali vemos um grupo de discípulos que nunca havia ouvido o evangelho da graça de Deus. Eles haviam aceitado a mensagem de João Batista que falava da vinda do Messias e, em arrependimento, tinham sido por ele batizados. Agora eles ouvem acerca do Senhor Jesus que morreu e ressuscitou, e que o Espírito Santo foi enviado. João havia dito que o Senhor Jesus batizaria com o Espírito Santo (Mt 3.11), e isso já havia acontecido no dia de Pentecostes, como o Senhor Jesus havia predito que aconteceria em Atos 1.5. Agora já não era mais necessário esperar pelo batismo do Espírito Santo, pois Ele já havia vindo, e assim, quando Paulo impôs suas mãos sobre eles, receberam o Espírito Santo. Eles também deram testemunho, ao falar em línguas, que o cristianismo não era igual à mensagem de João à nação de Israel, pois a mensagem do evangelho no cristianismo alcançava até os gentios. A epístola de Paulo aos Efésios não menciona o dom de línguas, mas revela claramente como a parede de separação entre judeus e gentios foi derrubada, formando um corpo em Cristo (Ef 2.14-16; 3.6).

Preste atenção neste detalhe: há uma crença para a salvação e uma crença que não resulta na salvação. O último é uma mera crença acadêmica e intelectual que até Satanás e os demônios têm (Tiago 2:19). Sem dúvida, há pessoas hoje que têm uma fé histórica em Jesus Cristo como um homem e até mesmo o Filho de Deus, mas que não se renderam a Cristo genuinamente. Paulo suspeitava que tal fosse o caso com os discípulos de João que conheceu em Éfeso. Ele disse que eles deviam confiar em Cristo para a salvação deles. Podemos entender a confusão que eles podem ter experimentado. Portanto, algum sinal de prova foi necessário. “E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas, e profetizavam.”(Atos 19: 6). Mais uma vez, o propósito de falar em línguas é óbvio, a saber, comunicar a mensagem evangélica.

1 CORÍNTIOS

A única epístola que fala do dom de línguas é 1 Coríntios.

Vamos começar analisando a introdução de Paulo sobre o tema dos dons espirituais. Em 1 Coríntios é o único lugar em toda a Bíblia onde os dons espirituais são discutidos. O Apóstolo escreve:

“Agora, em relação aos dons espirituais, meus irmãos, eu não gostaria que vocês fossem ignorantes” (1 Coríntios 12:1).

Os coríntios não ignoravam o fato dos dons espirituais, pois o Apóstolo já havia dito a eles: “De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo,” (I Co 1:7). Quando ele disse: “eu não gostaria que vocês fossem ignorantes”, ele não estava falando sobre a ignorância da existência dos dons, mas sim sobre a ignorância da utilização correta dos dons. Eles estavam bem informados sobre quais eram os dons espirituais, mas ignoravam o uso adequado dos dons, como é evidenciado pelos erros cometidos no seu exercício.

Antes de Paulo lançar uma discussão sobre os dons espirituais, ele lembra a facilidade com que eles foram desviados. Ele diz: “Vós bem sabeis que éreis gentios, levados aos ídolos mudos, conforme éreis guiados.” (I Co 12:2). Na verdade, ele está dizendo: “E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. (I Co 3:1) e, portanto, sua incapacidade de discernir entre o Espírito Santo e falsos espíritos” (I Co 2:15). Por serem carnais, “bebês em Cristo” (3:1), o exercício dos dons foi auto induzido pela energia carnal, não pelo Espírito Santo. A maioria dos cristãos não usam seus dons adequadamente. O uso de um dom por um cristão precisa estar de acordo com a Palavra de Deus.

Ali nos é dito que aos Coríntios não faltava nenhum dom, e ainda assim eram cristãos carnais (1 Co 1.7; 3.1). Uma vez que “os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Rm 11.29), Deus não retira um dom que tenha sido dado a uma pessoa, mesmo que ela não o esteja utilizando em conformidade com a Sua vontade revelada em Sua Palavra. É possível usar um dom dado por Deus de maneira errada, ou fazê-lo apenas para exibição e exaltação própria. Além disso é importante notar que nem todos os crentes em Corinto tinham o dom de línguas (1 Co 12.30), mas alguns, que haviam recebido esse dom, não o estavam usando em amor e nem para proveito, razão pela qual Paulo os exorta a não agirem como meninos que gostam de se exibir (1 Co 13.11; 14.20). Quando ele fala das línguas dos homens e dos anjos, o faz no mesmo sentido em que fala de anjos pregando um outro evangelho (Gl 1.8), pois podemos estar certos de que os anjos são capazes de falar qualquer língua deste mundo, e que os anjos são espíritos ministradores cuidando de todos os filhos de Deus, independente de sua nacionalidade (Hb 1.13,14).

É um erro assumir que falar em línguas é sinônimo do batismo do Espírito Santo.

É um ensinamento não bíblico que diz que todos os que são batizados pelo Espírito Santo falam em línguas. As Escrituras afirmam enfaticamente que todas as pessoas salvas receberam o batismo do Espírito Santo. “Por um único Espírito somos todos batizados em um só corpo. . . “(1 Coríntios 12:13). Todos os crentes em Corinto receberam o batismo do Espírito Santo, porém todos não falaram em línguas. A pergunta feita no versículo 30, “Todos falam em línguas?” É tão formulado de modo a transmitir a resposta esperada, “Não”.

A obra de batização do Espírito não é uma experiência no crente posterior à salvação. Pelo contrário, esse é o ato do Espírito Santo que une o pecador crente ao Corpo de Cristo. Mais enfaticamente, não há outros meios pelos quais se possa tornar um membro da Igreja, que é o Corpo de Cristo. Todas as pessoas salvas foram batizadas pelo Espírito Santo, mas nem todas as pessoas salvas falam em línguas. O trabalho de batização do Espírito coloca o crente no Corpo em posição.

Tenha cuidado para que não confunda o batismo do Espírito com o mandamento de ser “cheio do Espírito” (Efésios 5:18). Todos os crentes compartilham igualmente nesta posição em Cristo e, portanto, compartilham igualmente em união com Ele. Há apenas uma experiência de batismo pelo Espírito Santo, mas pode haver muitas experiências de ser preenchido com o Espírito. Paulo disse que nem todos os cristãos coríntios falavam em línguas (1 Coríntios 14:5) e, no entanto, afirmou claramente que todos tinham sido batizados com o Espírito Santo (1 Coríntios 12:13).

É um erro afirmar que falar em línguas é uma prova de estar cheio do Espírito. Todos os crentes são ordenados a “ser preenchidos com (controlado pelo) o Espírito” (Efésios 5:18), mas em nenhuma parte da Escritura os crentes são mandados a falar em línguas. Um cristão pode estar sob a influência e o controle do Espírito Santo e não falar em línguas. Há inúmeros casos em que os discípulos foram preenchidos com o Espírito, mas não falaram em línguas. Veja Atos 4:31 e 13: 9-11. Ser cheio de Espírito é ser controlado pelo Espírito. Devemos acreditar que os milhares de homens e mulheres poderosamente usados por Deus que estavam entre os melhores missionários do mundo do evangelho de Cristo e professores da Bíblia nunca foram preenchidos com o Espírito Santo porque nunca falaram em línguas? Pensamento completamente anti-bíblico!

É um erro afirmar que falar em línguas é uma prova da fé de alguém.

Pelo contrário, as pessoas que procuram sinais mostram sua falta de fé. É pecado para qualquer cristão procurar sinais antes de acreditar na Palavra de Deus. Como foi apontado anteriormente neste estudo, “as línguas são para um sinal, não para aqueles que acreditam, mas para aqueles que não acreditam” (1 Coríntios 14:22). Então, os cristãos em Corinto mostraram que eram fracos na fé, e possivelmente alguns que se identificavam como crentes nunca haviam sido salvos. A pessoa que procura qualquer sinal, seja falando em línguas ou qualquer outro sinal, é um bebê em Cristo ou um incrédulo.

Tomé foi um discípulo fraco na fé que não acreditaria sem ver. Depois que nosso Senhor surgiu da morte, apareceu aos discípulos. “Ora, Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei.”(João 20:24,25).

Oito dias depois, o Senhor apareceu novamente. “Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente.”(João 20:27). O incrédulo Tomé precisava de um sinal, então o Senhor apareceu para ele para que ele não continuasse sem fé. E então, disse a Tomé: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.”(João 20:29). Ao estudar a Bíblia, caro leitor, acredite no que está escrito, pois dessa forma você caminhará em fé, não pela visão ou pelo som.

É um erro buscar o dom de falar em línguas.

É claro que nem todos na igreja de Corinto falavam em línguas. O apóstolo diz: “Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil. Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; E a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.”(1 Coríntios 12: 4-11).

Note que os dons foram dados pelo Espírito de Deus e o mesmo foi “repartindo particularmente a cada um como ele quis.” (1 Coríntios 12:11), não como quisermos, “Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis” (vs. 18). A razão pela qual todos os cristãos não tiveram o dom de línguas é porque todos os dons são concedidos divinamente. O Espírito divide e distribui a cada crente seu próprio presente. Nenhum de nós é capaz de escolher seu próprio dom. O Espírito não dará um dom de acordo com nossos desejos. Não tente dizer a Deus o dom que Ele deveria dar a você. Nós somos apenas membros do Corpo, e nenhum membro tem o direito de dizer ao chefe o que fazer.

O dom de línguas é o menor de todos. Os dons estão listados duas vezes em 1 Coríntios 12, em cada caso, línguas e suas interpretações são colocadas em último lugar (versículos 8-11 e 28-30). Observe a formulação cuidadosa na última passagem: “Primeiro. . . Secundariamente. . . Em terceiro lugar. . . depois disso . . . ” sendo a escala de acordo com a importância e utilidade. O lugar das línguas é enfatizado em 1 Coríntios 14:1, 5, 6, 19. Nos dias atuais, o dom de línguas em muitas igrejas é considerado como o principal e os mesmos afirmam que TODOS deveriam ter. A igreja de Corinto cometeu um erro ao insistir demais no dom de línguas como o dom mais cobiçado de todos. Para eles, as línguas eram o presente de prestígio, daí o uso indevido e o abuso em Corinto. E a história se repete hoje.

Paulo os cobra por tal uso indevido dos dons em I Co 12:31. Quando ele escreve: “Portanto, procurai com zelo os melhores dons;” Ele não está exortando ou comandando, como o tom imperativo pode indicar. Em vez disso, ele está emitindo uma declaração de fato, como é sugerido no indicativo. Em suma, ele está afirmando: “Você não está satisfeito de ser um pé, escondido em uma meia e sapato; você quer ser um olho. Você quer ser visto e ouvido.” E então o apóstolo acrescenta: “e eu vos mostrarei um caminho mais excelente… Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine “(1 Coríntios 12: 31,13 :1).

Um jovem que alegou ter o dom de falar em línguas me disse que a base bíblica para a fazê-lo é 1 Coríntios 14:4. Paulo disse: “O que fala em língua desconhecida edifica-se” (14:4), mas, em seguida, ele acrescentou: “Assim também vós, como desejais dons espirituais, procurai abundar neles, para edificação da igreja.”(14:12). Os presentes foram dados para a edificação e do lucro de todo o Corpo de Cristo, não apenas um membro. “Para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros.” (12:25). Auto-edificação é contrária ao princípio do amor como ensinado no capítulo 13, pois “o amor não busca os seus interesses” (13:5). Os dons foram dadas para o bem comum de todos (12:7).

Língua de homens ou celestial?

Não existe aqui nenhum pensamento acerca da, assim chamada, “língua celestial”, pois como poderia uma língua desconhecida a qualquer pessoa ou nação deste mundo ser um testemunho para incrédulos? Pois as Escrituras nos demonstram, conforme já mostramos, que as línguas foram dadas como um sinal para os incrédulos. As línguas não serão necessárias quando “vier o que é perfeito” (1 Co 13.8-10), portanto cessarão na glória vindoura. Note aqui que não diz “o dom de línguas”, mas simplesmente que as “línguas” cessariam. No Reino de Deus a profecia não será necessária, o conhecimento não será mais em parte e, já que todos serão de um mesmo parecer e falarão a mesma linguagem, então as diferentes línguas (ou idiomas) cessarão. As diferentes línguas começaram com a torre de Babel quando o homem, em seu orgulho, procurou erguer uma torre de tijolos cujo topo alcançaria os céus. Agora Deus está construindo uma casa espiritual, da qual todos os crentes fazem parte como pedras vivas, não importa que língua falem ou a que nacionalidade pertençam. Mais uma vez vemos a sabedoria de Deus em apresentar esse algo novo por meio do dom de línguas. O uso desse dom sem amor e para pura exibição não estava nos propósitos de Deus.

Regras para o uso do Dom de Línguas – 1 Coríntios 14 (Verso por verso)

Antes de tecermos os comentários verso a verso, vale lembrar que na primeira carta aos coríntios o objetivo de Paulo é advertir a problemática igreja de Corinto, que vinha se dividindo e absorvendo diversos costumes pagãos como: divisões e contendas (1:10,11) espírito mundano (3:3) imoralidade sexual e prostituição (5:1 6:16, 7:2), idolatria e, obviamente, culto aos demônios (10:14,20,21), glutonaria e egoísmo (11:21,22,33,34), ignorância e confusão quanto aos dons espirituais 12:1,2,7,31.

O leitor perceberá claramente que tal igreja estava se alienando de maneira absurda e, por isso, perceberá a vital importância entender o contexto em que esta carta foi escrita para que possa também compreender o que Paulo quis ensinar sobre o dom de línguas.

A seguir, comentarei verso por verso do capítulo 14 de 1 Coríntios. Não deixe de comentar e dar suas impressões sobre o que foi escrito.

  1. Segui o amor; e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar.

A comunhão estava em declínio, a comunidade estava demasiadamente desequilibrada… e havia sim manifestações espirituais duvidosas. Por isso, Paulo dá preferência ao profetizar. Afinal, isso envolveria necessariamente em conhecer as Escrituras e estudar as profecias, ou seja, ter como base a Palavra já revelada, pois nenhuma revelação (por sonho ou visão) poderia desqualificar algo já ensinado outrora por Deus nas Escrituras. Deus não se contradiz. O dom de profecia aliado ao conhecimento bíblico tornaria possível identificar vários falsos profetas que viessem a surgir no meio deles.

  1. Porque o que fala em língua não fala aos homens, mas a Deus; pois ninguém o entende; porque em espírito fala mistérios.

Ao se referir de pronto ao “Porque o que fala em língua…” percebemos que o tema que gerava confusão na igreja de Corinto era o dom de línguas. Paulo quis organizar a casa e enfatizar como o dom deveria ser ministrado adequadamente.

Há algumas interpretações viáveis para esse verso, entre elas:

a) O dom de línguas aqui é o mesmo dado no dia de pentecostes (At 2), ou seja, um dom de idiomas. Sendo assim, Paulo estava dizendo que, uma pessoa estrangeira que participava do culto em Corinto e que conhecia apenas um idioma, não compreenderia a mensagem caso alguém usasse o dom de línguas (idiomas) para falar um idioma totalmente diferente do dela. Desse modo, quando a pessoa exercesse seu dom espiritual na adoração público sem que o ouvinte pudesse compreender o idioma falado, ela estaria “falando mistérios” para quem tentasse entender. Afinal, qualquer coisa dita num idioma que não é o nosso soa como “mistério”. Desse modo, o dom só seria compreendido por Deus e a fala que falasse. Imagine alguns brasileiros que falam apenas a língua portuguesa assistindo a uma reunião de japoneses.

b) Outra interpretação viável é a apresentada, por exemplo, por Vanderlei Dorneles em sua obra Cristãos em Busca de Êxtase. Entre outras coisas, o teólogo explica que Paulo não apoia o que ocorria em Corinto e nem mesmo está definindo o que é o dom ali usado. Desse modo, Paulo estaria dizendo que a maneira como os Coríntios praticavam o dom era errada, falando de coisas ininteligíveis e “misteriosas”, como se estivessem falando apenas a Deus e “edificando” a si mesmos de maneira egoísta. O apóstolo queria resgatar o propósito missionário e evangelístico do dom.

c) Por sua vez, o teólogo Samuel Bacchiocchi em sua obra Popular Beliefs: Are They Biblical? crê que 1 Coríntios 14:2 poderia estar realmente tratando de um “dom” de línguas extáticas, porém, desaprovando-o: ele estaria corrigindo essa influência pagã que levou alguns Coríntios a distorcerem o verdadeiro dom de línguas.

  1. Mas o que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação.

Considerando apenas a primeira das interpretações listadas acima (mas a terceira me parece também muito convincente e lógica), na congregação aquele que ministrava a Palavra, dirigia o culto e pregava à comunidade normalmente era alguém da própria comunidade e que falava o idioma da maioria dos membros residentes naquela cidade. Portanto, uma vez que a cidade de Corinto era uma cidade polo e também portuária, tinha que ministrar cultos com a participação de estrangeiros. Com isso, pessoas que falavam outros idiomas deveriam atender à maioria, sem desprivilegiar os visitantes.

  1. O que fala em língua edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja.

Não podemos ignorar que o tom do apóstolo ao tratar das línguas no culto é de crítica, jamais incentivo. Ele faz questão de mostrar quão egoísta é fazer algo para si apenas, sem pensar nos outros. Podemos entender isso como um exibicionismo cultural. Por isso, Paulo aconselha que haja intérpretes – e com ressalvas: dois ou três. Além disso, Paulo privilegia o profetizar, pois isso envolvia revelar os desígnios de Deus de maneira inteligível, ministrando às pessoas a Palavra de Deus.

  1. Ora, quero que todos vós faleis em línguas, mas muito mais que profetizeis, pois quem profetiza é maior do que aquele que fala em línguas, a não ser que também interprete para que a igreja receba edificação.

Ao Paulo falar que gostaria que todos falassem em línguas, fica nítido o que desejava: que todos pregassem o evangelho e alcançassem todas as nações em seus idiomas, pois esta era a real finalidade, propósito e utilidade do dom de línguas (conf. Verso 21 onde ele cita a profecia de Isaías 28:14 em conformidade com Atos 2:4 a 11). Agora, ao contrastar o dom de língua com o de profetizar, ele (Paulo) está dizendo que o que profetiza ministra a palavra de modo a atingir a maioria presente no culto, diferentemente daquele que está falando a língua de um determinado grupo apenas. Por este motivo ele ressalta que se a pessoa também interpreta a língua estrangeira, ou há alguém que a interprete é algo válido, pois edifica a maioria presente na reunião religiosa. A manifestação é dada para o que é útil (1 Coríntios 12:7). No caso das línguas, a pregação do evangelho. Se não fosse assim, o dom não teria utilidade.

  1. E agora, irmãos, se eu for ter convosco falando em línguas, de que vos aproveitarei, se vos não falar ou por meio de revelação, ou de ciência, ou de profecia, ou de doutrina?

Neste verso segue sua crítica à igreja de Corinto, deixando claro que não há proveito falar em línguas se isto não for para edificar a maioria das pessoas no culto. Paulo falava cerca de 14 línguas diferentes. Portanto, era um poliglota e sabia pregar fluentemente em outras línguas. Porém, deixa claro que seria um exibicionismo de sua parte fazer isso. A preferência no culto deveria ser o ensino de forma compreensível e racional por meio da ciência e da profecia, bem como através dos princípios doutrinários exarados na Palavra de Deus. Aliás, em Romanos 12.1 Paulo afirma que Deus deseja um culto racional que, obviamente, está intimamente relacionado à adoração “em espírito e em verdade” proposta por Jesus Cristo (Jo 4:23,24).

  1. Ora, até as coisas inanimadas, que emitem som, seja flauta, seja cítara, se não formarem sons distintos, como se conhecerá o que se toca na flauta ou na cítara?

Até um instrumento musical seja de sopro ou corda, deve emitir sua sonoridade por meio de notas musicais nítidas, para que se possa saber a letra ou qual canção está sendo tocada. O mesmo deve ocorrer com o dom de línguas! Esse é o argumento de Paulo.

  1. Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?

Um soldado reconhecia uma ordem pelo som da trombeta, ou seja, as notas que se emitiam a partir do instrumento. Até hoje isto é claro para os militares num quartel. Do mesmo modo, só fazendo uso do dom de línguas corretamente, as pessoas poderão ser edificadas.

  1. Assim também vós, se com a língua não pronunciardes palavras bem inteligíveis, como se entenderá o que se diz? Porque estareis como que falando ao ar.

Todos com a voz humana devem se pronunciar/comunicar de maneira INTELIGÍVEL. Nosso ensino deve ser claro, compreensível e deve poder ser ouvido nitidamente. Do contrário, nossas palavras serão improdutivas, como se estivéssemos falando “ao ar”, não para pessoas.

  1. Há, por exemplo, tantas espécies de vozes no mundo, e nenhuma delas sem significação.

Mais uma vez Paulo deixa claro que está defendendo o uso de um “dom de idiomas” dado pelo Espírito Santo, ou seja, línguas nativas de diversos locais do mundo, e com significado idiomático compreensível entre os que falam.

  1. Se, pois, eu não souber o sentido da voz, serei estrangeiro para aquele que fala, e o que fala será estrangeiro para mim.

Se eu ignorar o idioma da pessoa a quem quero me comunicar, infelizmente não me comunicarei – e vice-versa.

  1. Assim também vós, já que estais desejosos de dons espirituais, procurai abundar neles para a edificação da igreja.

Fica claro que havia certa euforia na busca pelo dom de línguas, a ponto de Paulo corrigir algo que não estava correto com o tipo de manifestação do dom naquela igreja. Ou seja: haviam em Corinto manifestações verdadeiras e falsas.

  1. Por isso, o que fala em língua, ore para que a possa interpretar.

Havia o que falava outra língua pelo poder do Espírito Santo e havia o que falava outra língua, mas não pelo poder de Deus. Daí entendemos o porquê de Paulo dar esta ordem “ore para que a possa interpretar”. Isso significa que se um indivíduo estivesse manifestando o dom, mas ninguém presente conseguisse interpretar – nem ele mesmo (depois de orar a Deus), ficava claro que aquilo não era um idioma ou língua conhecida. Portanto, deveria calar-se conforme os versos 27 e 28.

  1. Porque se eu orar em língua, o meu espírito ora, sim, mas o meu entendimento fica infrutífero.

Este verso revela que os que manifestavam o falso dom queriam se afirmar (e aparecer) usando uma linguagem apenas para eles mesmos, e que ninguém precisava entender ou interpretar as sílabas ou verbalizações que eram produzidas por. Paulo educadamente diz que a fala precisa ser usada para edificar os outros. O “espírito” (mente) desta pessoa está transmitindo algo pelo som, mas algo vazio e sem fruto. Logo, subentende-se que não é o Espírito Santo quem está produzindo.

  1. Que fazer, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento.

Mas uma vez Paulo chama a irmandade que estava tendo estas manifestações a buscarem o Espírito Santo que sempre privilegia a razão e o entendimento com o dom de línguas. Espiritualidade e razão não são excludentes nas Escrituras.

  1. De outra maneira, se tu bendisseres com o espírito, como dirá o amém sobre a tua ação de graças aquele que ocupa o lugar de indouto, visto que não sabe o que dizes?

Paulo está argumentando: “como o indouto (que não é doutor), pessoa sem escolaridade ou formação em determinado idioma, vai dizer “amém” se ele não entende o que você diz?”

  1. Porque realmente tu dás bem as graças, mas o outro não é edificado.

A pessoa pode até estar certa de que está dando uma mensagem abençoada, mas o outro não está se beneficiando em nada com isso se não lhe for comunicado de modo compreensível.

  1. Dou graças a Deus, que falo em línguas mais do que vós todos.

Saulo de Tarso era um poliglota que falava cerca de 14 idiomas. Seu currículo: judeu, membro do sinédrio e educado aos pés de Gamaliel. Além disso, possuía cidadania romana.

  1. Todavia na igreja eu antes quero falar cinco palavras com o meu entendimento, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua.

Paulo reconhece que precisava ser simples na igreja em sua comunicação mesmo possuindo grande nível cultural. Mesmo dominando vários idiomas, preferia instruir os outros com entendimento e não com idiomas incompreensíveis para a maioria. Isso é uma regra básica da boa comunicação!

  1. Irmãos, não sejais meninos no entendimento; na malícia, contudo, sede criancinhas, mas adultos no entendimento.

Paulo exorta para que a ingenuidade e a capacidade de percepção sejam colocadas em seus devidos lugares. Deseja que na malícia eles sejam meninos, mas, no entendimento, adultos. Até hoje na igreja há essa grande necessidade, pois, muitos acreditam em tudo o que é sobrenatural como se de origem divina, ignorando a advertência de Jesus em Mateus 7.21-24.

  1. Está escrito na lei: Por homens de outras línguas e por lábios de estrangeiros falarei a este povo; e nem assim me ouvirão, diz o Senhor.

É maravilhoso notarmos neste texto que Paulo sempre faz uso do Velho Testamento para sustentar seus ensinos. Aqui ele cita Isaías 28:11,12 que prediz o exílio do povo de Deus, “para assinalar que a Palavra de Deus exposta em uma língua estranha ou não conhecida pela audiência não caracteriza a benção, senão a maldição”.

  1. De modo que as línguas são um sinal, não para os crentes, mas para os incrédulos; a profecia, porém, não é sinal para os incrédulos, mas para os crentes.

Os não crentes, ou seja, os incrédulos no evangelho, ao observarem uma pessoa de outra cultura falando em seu idioma sem nunca ter estudado para isso, poderá ser melhor convencido por tal sinal e se tornar mais acessível ao evangelho. Já a profecia é sinal para os que creem. Perceba também que a alegação dos irmãos pentecostais de que o dom de línguas “identifica todos aqueles são batizados com o Espírito” não se sustenta, pois, o dom é um sinal para os incrédulos, não para os crentes.

  1. Se, pois, toda a igreja se reunir num mesmo lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão porventura que estais loucos?

Mas uma vez percebemos a preocupação de Paulo com a ordem no culto. Se toda a cristandade desta igreja cosmopolita (com pessoas de diversos lugares), tanto judeus como gentios, ao adorarem no culto começassem a falar de maneira sobrenatural ao mesmo tempo e no mesmo lugar, viraria confusão e os incrédulos e os sem formação técnica em algum idioma (indoutos) iriam dizer abertamente que tais crentes era loucos. Como consequência, uma enorme barreira seria criada entre a igreja e os incrédulos, prejudicando todo trabalho de evangelização – algo que faz parte dos planos de Satanás para atrasar a volta de Cristo e seu castigo no lago de fogo (Ap 14:11; 20:10; Rm 16:20).

  1. Mas, se todos profetizarem, e algum incrédulo ou indouto entrar, por todos é convencido, por todos é julgado

Paulo exaltou o dom de profecia colocando-o em posição de destaque em relação ao dom de línguas exatamente porque o profeta sempre falava no mesmo idioma que seus ouvintes, de modo que a mensagem era compreendida. Com isso, toda a igreja era fortalecida e incrédulos convertidos. Para ele, qualquer profecia deveria estar subordinada às Escrituras já dadas anteriormente, pois Deus jamais se contradiz e um profeta sempre estará subordinado aos profetas bíblicos (v. 32). Daí a recomendação do apóstolo para não ir além do que Está Escrito (cf. 1Co 4:6). Afinal, Deus não traz confusão aos Seus filhos (v. 33).

  1. Os segredos do seu coração se tornam manifestos; e assim, prostrando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, declarando que Deus está verdadeiramente entre vós.

“Isto podia ocorrer por que a consciência era despertada e os desígnios e motivações reais do coração eram revelados pelo Espírito Santo. Também podia ser que fatos secretos sobre os estranhos presentes na reunião seriam revelados sob inspiração do Espírito Santo. Foi a revelação de segredos de sua vida que convenceu a mulher samaritana de que Jesus era um profeta (Jo 4:19, 29)”.[4] Ao presenciar tal fenômeno ele se prostra e adora ao Criador, reconhecendo que Deus está no meio daquela igreja e, ao mesmo tempo, falando com ele.

  1. Que fazer, pois, irmãos? Quando vos congregais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação.

Há um momento para cada coisa e deve-se respeitar uma liturgia que precisa, obviamente, incluir a ordem e a decência (conf. Verso 40)

  1. Se alguém falar em língua, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e cada um por sua vez, e haja um que interprete.

Não podemos ignorar que o tom do apóstolo quanto às línguas no culto é de crítica e repreensão, jamais um incentivo. Neste verso Paulo ordena que haja intérprete, e com limite de no máximo três. Se esta língua fosse uma língua de anjo ou uma linguagem do Espírito Santo, você acredita que Paulo teria esta ousadia de limitar o Espírito? Deus permitiria Paulo limitar o Espírito Santo? Mandar em Deus? Jamais. Portanto, a autorização e limitação era para idiomas que deveriam ser traduzidos (ou interpretados) para a maioria.

  1. Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus.

Paulo é firme com a questão das línguas. A ordem era clara: se ninguém entende o que está sendo dito e não há interpretação para o idioma, cale-se.

  1. E falem os profetas, dois ou três, e os outros julguem.

Acerca da revelação por sonhos ou visões (cf. Nm 12:6), Paulo também quer a mesma ordem e decência. Além disso, pede para se fiscalizar: membros peritos nas Escrituras deveriam julgar se as revelações estavam sujeitas e em conformidade com a Bíblia, uma vez que Deus não se contradiz (v. 32)

  1. Mas se a outro, que estiver sentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro.

O culto era interativo e havia a oportunidade de participação, porém, uma pessoa por vez deveria se manifestar. Enquanto um falasse, os outros deveriam ficar em silêncio. Amigo leitor: sua igreja tem seguido essa e outras orientações do apóstolo Paulo?

  1. Porque todos podereis profetizar, cada um por sua vez; para que todos aprendam e todos sejam consolados

Outra vez mais o apóstolo ensina que todos poderiam participar, mas que isso deveria ser feita de maneira organizada, de modo que todos realmente se beneficiassem com o culto.

  1. Pois os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas

“Devia haver pessoas que afirmavam não poder ficar em silêncio quando estavam sob inspiração do Espírito Santo. Paulo rejeita essa pretensão. Os verdadeiros profetas tinham controle de sua mente e podiam falar ou permanecer em silêncio. A inspiração não elimina a individualidade e o livre-arbítrio. O agente humano expressa em seu próprio estilo e pensamento as verdades reveladas a ele”.

  1. Porque Deus não é Deus de confusão, mas sim de paz. Como em todas as igrejas dos santos.

Nada de confusão… um lugar de culto que é confuso, normalmente é um lugar onde ninguém se entende e no qual há muita agitação e gritaria. Paulo diz que o Espírito Santo se entristece com esse tipo de culto, o que obviamente acarreta desconforto para os anjos de Deus em permanecerem atuantes nesse tipo de lugar (leia Efésios 4:30,31)

  1. As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei.

A questão aqui com as mulheres era uma questão cultural. Paulo, ao contrário do que muitos pensam, não está sendo machista, mas adotando uma postura estratégica para evangelizar estrangeiros que visitavam a igreja de Corinto e que tinham seus próprios usos e costumes. Devemos levar em consideração que este texto foi escrito há dois mil anos, e nele estão retratadas vivências, acontecimentos da cultura daquela época.

Portanto, não poderemos ignorar este fato se quisermos interpretar devidamente o texto. Outro elemento a ser considerado é que a posição da mulher cristã nos diferentes ambientes da época (greco-romano e judaico), era de subordinação ao homem. A estrutura família era patriarcal, o que limitava a participação da mulher dentro do seu lar e excluía sua participação social e pública.

Naquelas culturas, era vergonhoso e falta de decoro a mulher falar em público. Na história ocidental recente, a mulher só teve a liberdade para votar no Brasil no governo de Getúlio Vargas a partir de 24 de fevereiro de 1932. Agora imagine a consideração que se tinha pela mulher no primeiro século da nossa era, e ainda em uma cultura oriental.

Não querendo criar uma barreira cultural para a pregação do evangelho, Paulo pede para que as mulheres cristãs para que evitassem falar em público para não escandalizar tais visitas no culto. O apóstolo sabia que aquelas pessoas eram muito limitadas e compreendiam a submissão feminina de maneira muito equivocada. Todavia, perceba que em outros contextos, Paulo apoiava o ministério da mulher (leia Romanos 16), tanto que nos dias dos apóstolos haviam até mesmo profetisas (At 21:8,9).

  1. E, se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja.

Indecoroso significa quebrar o decoro, ou seja, o costume da maioria… O comentário ao verso anterior também explica esse verso.

  1. Porventura foi de vós que partiu a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós?

Agora Paulo vai finalizando e em tom de sátira faz perguntas: O conhecimento da vontade divina começa e termina em vocês? É isso que vocês pensam? E aí, vocês discordam?

  1. Se alguém se considera profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor.

Quem se considera profeta entre vocês? Quem entre vocês possui uma capacidade espiritual especial? Se existe essa pessoa, reconheça agora que o que eu estou dizendo é mandamento do Senhor.

  1. Mas, se alguém ignora isto, ele é ignorado.

Se alguém ainda discordar, o jeito será deixar que permaneça em sua ignorância.

  1. Portanto, irmãos, procurai com zelo o profetizar, e não proibais o falar em línguas.

Procurem com zelo a revelação profética para poder proclamar com entendimento o evangelho de salvação. Além disso, jamais proíbam o falar em línguas como dom legítimo do Espírito para comunicar a mensagem de Deus em outros idiomas. Porém, sigam os critérios já detalhados para evitar exageros, desordem e fanatismo.

  1. Mas faça-se tudo decentemente e com ordem.

Nada será para honra e glória de Deus se não for desta maneira.

Espero que essa breve análise tenha lhe auxiliado a fazer uma análise contextual e mais ampla do dom de línguas em 1 Coríntios 14.

O dom de línguas é parte do programa de Deus para a Igreja hoje?

Deus intervém em modos sobrenaturais, fazendo milagres quando e onde quer que ele faça. Há muitas pessoas que não são estudantes da Bíblia, portanto, sua única fonte de conhecimento e compreensão é subjetiva, ou seja, razão ou experiência. Não estou sugerindo que não haja validade na experiência ou na razão. Tenho certeza de que há momentos em que o motivo e a experiência são corretos e, portanto, confiáveis. Mas nenhuma razão ou experiência pode ser aceita como autoridade final. Alguém irá argumentar: “Eu tive a experiência de falar em línguas; Eu acho essa experiência no Novo Testamento; Portanto, minha experiência é verdadeira.” Qualquer filósofo cristão treinado irá dizer-lhe que tal argumento não é válido porque faz da experiência a base da verdade, então, se não experimentamos todas as experiências, ele não tem toda a verdade. A verdadeira filosofia cristã passa da verdade à experiência, portanto, qualquer experiência cristã válida deve ser determinada pela interpretação correta da Sagrada Escritura. A experiência, relacionada às nossas emoções, pode ser enganosa, mas uma interpretação correta da Palavra de Deus nunca pode enganar.

Nós chegamos agora à pergunta: O dom de línguas é parte do programa de Deus para a Igreja hoje? Se assim for, então estaríamos errados se fechássemos nossas mentes. Se não estiver, então estamos errados se insistimos no exercício de falar em línguas.

Se um servo de Deus, cheio do Espírito Santo, comprometido com Cristo, for dirigido por Ele em alguma situação a falar em outro idioma, para alcançar o coração de algum “estrangeiro”, isso ocorrerá, não tenha dúvida. Não é mais tão comum como ocorreu no início do ministério da Igreja Primitiva, mas podemos duvidar que ainda ocorra manifestação de poder como essa em nossos dias? Claro que não. Mas não creio em balbucio de palavras confusas e sem propósito, pois isso, como vimos, não está respaldado nas Escrituras.

O Espírito Santo foi dado no dia do Pentecostes, e agora Ele habita nos corpos dos crentes (1 Co 6.19) e em meio a cristandade (Ef 2.22). O Senhor Jesus falou disso (Jo 14.16,17), dizendo aos discípulos, antes do dia de Pentecostes, que esperassem por Sua vinda em cujo tempo eles seriam “do alto revestidos de poder” (Lc 24.49). Há dois poderes acima do homem, e estes são o poder de Deus e o poder de Satanás. O movimento carismático leva as pessoas a buscarem por demonstrações de poder que não estão em conformidade com a Palavra de Deus e, portanto, não são pelo Espírito de Deus.

Por esta razão vemos a importância de primeiro testarmos esse movimento carismático moderno pela Palavra de Deus. Não busquemos por “poder”, pois se alguém, seja homem ou mulher, é um verdadeiro crente no Senhor Jesus Cristo, tal pessoa é habitada pelo Espírito de Deus, que é o poder para nosso andar como filhos de Deus.

Em Lucas 11.13, antes do dia de Pentecostes, o Senhor Jesus disse aos Seus discípulos que pedissem pelo Espírito Santo, pois Ele ainda não havia sido dado (Jo 7.39), mas agora Ele habita nos corpos de todos que creram no evangelho (Ef 1.13). Não há qualquer registro de alguém a quem tenha sido dito que esperasse pelo batismo do Espírito Santo após o dia de Pentecostes. Existe a exortação que diz “enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18), que significa que devemos permitir que Ele nos guie em tudo o que fazemos. Ela é dada em contraste com o embriagar-se com vinho, uma vez que alguém assim estaria fora de controle, enquanto que aquele que está cheio com o Espírito encontra-se sob controle, pois dois aspectos do fruto do Espírito são temperança e domínio próprio (Gl 5.22,23). Onde o Espírito de Deus estiver guiando, aí há liberdade e serviço inteligente.

À medida que andarmos perto do Senhor em dependência e obediência, haverá, pelo poder do Espírito de Deus, o desfrutar de Cristo e de nossa porção nEle, pois o Espírito Santo não fala de Si mesmo, mas nos guia a toda verdade e glorifica a Cristo (Jo 16.13,14; Ef 3.16,21; Cl 1.8-14). Ele também nos capacitará a darmos um verdadeiro testemunho por Cristo perante outros (Fp 2.15,16). Se virmos demonstrações de poder ao nosso redor, seremos mais prontos a verificar se estão de acordo com a Palavra de Deus do que a nos deixarmos levar pelo próprio sinal ou maravilha (Dt 13.1-4).

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.” (Marcos 16:15-18)

E, para resumir de forma ainda mais clara, termine este estudo vendo o vídeo abaixo. Dura apenas 4:48 minutos. IMPERDÍVEL!

Quem tem ouvidos para ouvir, OUÇA!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *